• Marian Koshiba

Sobre algumas liberdades que a pandemia me deu, por Marian Koshiba

Sou mulher. E com isso, uma série de expectativas, preconceitos, restrições, oposições e até idealizações recaem sobre meu corpo, meus modos, meus pensamentos e palavras. Ser mulher não é ser totalmente livre, ainda, nem nas cidades ditas mais modernas e diversas, como a São Paulo que vivo, menos ainda em outros locais remotos deste mundo ainda tão desigual e inóspito.

Porém, surpreendentemente, no meio de todo esse contexto atípico, algumas liberdades que eu teimava em não ostentar passaram a ganhar naturalidade com a pandemia. Em minha defesa: por mais desconstruída que eu procure ser, os machismos nossos de cada dia ainda são erva daninha vicejando nos cantinhos mais escondidos e obscuros de quem eu sou. Sempre me pego surpresa com as micro agressões que sofro sem notar, que imponho a mim mesma ou a outras por rescaldos dessa cultura misógina que ainda não se extinguiu - inclusive dentro de nós, mulheres.

Voltando às liberdades pandêmicas, uma delas é na relação com minha imagem: sair do casulo do meu lar descabelada, com fios há meses sobrevivendo a cortes caseiros adaptados de tutoriais de internet com tesouras escolares capengas, adornados e esculpidos de forma caótica por um conjunto de anteparos deformadores como máscaras N95 e face shields, resultando numa personagem que mais parece saída de uma série de contaminação radioativa, misturada com apocalipse zumbi e inspirações cubistas; romper minha casa na ausência total dos quilos de maquiagem investidos ao longo dos anos, em camadas e camadas de coberturas e disfarces com os quais eu escondia quem eu sou de verdade; pisar soleira afora com as roupas descasadas, sem qualquer senso de harmonia ou moda, ou mesmo flagrantemente repetidas por saídas a fio (a roupa de “sair de casa” rapidinho, que fica relegada ao ostracismo e ao exílio de quem está contaminada demais para ingressar além do cabide à porta de entrada)... e mesmo assim, não me importar demais com tudo isso! Rechaçar qualquer senso de constrangimento ou menosprezo por meu “descaso”, assim como qualquer homem coloca a primeira camiseta velha sem lavar o rosto ou pentear os cabelos e, principalmente, sem enfrentar o mais leve risco à sua honra ou sua consciência própria. Que liberdade pequena, mas doce, há nisso! Que leveza se ganha e que fardo se abandona ao se dar ao luxo de simplesmente viver como vivem eles…


Há ainda a liberdade (física e subjetiva) de poder passar mais tempo de sua existência adulta sem um sutiã sufocando sua respiração, marcando sua pele, prendendo a livre movimentação de sua caixa torácica! Desde o início da pandemia, nem na rua me submeto a tal desconforto - e os mamilos, tão controversos mesmo se minimamente notáveis sob os tecidos, passaram a ser livres, quase num ato de rebeldia contra esse tabu ridículo sobre uma parte natural do corpo humano.


Uma certa liberdade ainda em relação aos (auto) julgamentos sobre como meu corpo deveria estar, parecer, se apresentar. Sim, o isolamento num apartamento paulistano médio envolve movimentação quase que apenas no próprio eixo, a incidência de sol residual que a selva de empreendimentos no entorno permite, uma alimentação que às vezes capenga pelos preços e pela qualidade dos insumos. Se somar a esse caldo a ansiedade exacerbada pelo contexto catastrófico em que estamos, a mente dá vazão a picos de excessos diversos.

Então sim, estou distante dos padrões que se avitrinam e se repetem para nós mulheres como mantras de auto-depreciação. Mas quer saber? Eu tenho usado o tempo trancafiada aprendendo tantas coisas, desenvolvendo tantos projetos e planos, conquistando habilidades e caminhando em sonhos, lendo tanto e cantando tanto… Algumas coisas aqui dentro caminharam numa velocidade que o mundo pré-pandêmico jamais permitiria! E acima de tudo, tenho sobrevivido a esses tempos da melhor maneira que consigo. Isso tudo já não deveria ser mais celebrado que qualquer kilo a mais que choca a balança?


E como eu gastava muito mais tempo e dinheiro em tantas coisas e situações que portavam o peso de uma imagem externa que eu gostaria de zelar! Roupas, acessórios, procedimentos, parafernalhas, objetos, experiências, locais... Algumas, apesar de ainda serem do meu interesse por gosto pessoal, ganharam uma dosagem bem mais minguada no meu rol de prioridades sem o componente do olhar e da expectativa externas. O conforto, físico e subjetivo, por outro lado, ganharam dimensões muito mais importantes e notáveis, além de demonstrarem o quão desconfortável eu vivia antes (sem notar inclusive) em algumas vestimentas, mas também moldes, situações, locais e pessoas.


Eu só espero que minha coragem não persista apenas o tempo em que durar a obrigação pelo isolamento e pelas máscaras, que acabam por criar uma identidade secreta que dá uma ousadia pra ir além do que se teria se fosse à cara limpa.



Marian Koshiba é cantora, escritora e compositora.


Faz parte do grupo de mulheres do projeto É DIA DE ESCREVER.


Se eu fosse você iria la no @marian.koshiba, dava uma olhada nos trabalhos dela e depois passaria a seguí-la.

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