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Cadê a Crônica Que Estava Aqui?



Quinto encontro do Curso É Dia de Escrever, na Casa de Cultura do Butantã. Começamos um novo módulo, descobrimos que crônica anda meio sumida entre os mais jovens e quase causamos uma pane coletiva tentando transformar um único acontecimento em quatro textos diferentes.


Setembro chegou e, com ele, começamos o segundo módulo do nosso curso:


EU / MUNDO


Se em agosto passamos quatro encontros olhando para dentro trabalhando identidade, memória, autobiografia, cotidiano e esse sujeito meio esquisito que segura a caneta, agora chegou a hora de abrir um pouco a janela.


Durante todo este mês de setembro vamos trabalhar com crônicas.


E logo na primeira conversa apareceu uma constatação curiosa:


Crônica parece não ser um gênero muito presente entre os mais jovens da nossa turma.


Poema? Sim.

Romance? Claro.

Conto, fantasia, fanfic? Temos.

Mas crônica...



Cadê a crônica que estava aqui?

Talvez uma das respostas esteja no lugar onde a crônica brasileira cresceu: o jornal.


A crônica se consolidou no Brasil profundamente ligada à imprensa. Era aquele texto que aparecia no meio das notícias e permitia que escritores conversassem com o leitor sobre a cidade, política, futebol, relações, vizinhos, amores, cachorros, ônibus ou simplesmente sobre uma coisa besta que aconteceu na terça-feira. Estudos sobre a história do gênero mostram justamente essa relação entre crônica, jornalismo e literatura.


Machado de Assis, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo e tantos outros tiveram essa relação entre literatura e imprensa.


Então ficamos pensando:


Se as novas gerações praticamente não criaram o hábito de abrir um jornal impresso... onde elas encontrariam a crônica?


Talvez ela não tenha desaparecido. Talvez tenha mudado de roupa.


Um vídeo contando uma situação absurda que aconteceu no metrô. Um fio sobre uma conversa escutada no mercado. Um post sobre a mãe. Uma reflexão engraçada sobre relacionamento. Uma história aparentemente insignificante que começa com “vocês não sabem o que aconteceu comigo hoje...”.


Tudo isso guarda alguma coisa daquele impulso da crônica: olhar para um acontecimento cotidiano e encontrar nele algo que mereça ser contado.


Não significa que um post ou um vídeo seja automaticamente uma crônica. Longe disso até. Mas talvez parte da necessidade humana que alimentava a crônica tenha migrado para outros formatos.


A crônica continua por aí.


Antigamente todo mundo fazia tudo?

No meio da conversa surgiu outra questão.


Começamos a reparar na biografia de alguns escritores e parecia que antigamente ninguém conseguia escolher uma profissão só.


Chegamos ao cumulo de ver um destes escritores que estudamos que era cronista, engenheiro, diplomata, advogado ...


Mas, Anete, sabia que só ela, trouxe uma observação interessante: o mundo foi se especializando.


E faz sentido pensar por esse caminho.


À medida que o conhecimento foi ficando mais complexo, as profissões também foram criando especializações, formações específicas e percursos cada vez mais longos. Aquilo que antes podia ser aprendido dentro de uma formação relativamente ampla foi se dividindo em áreas, subáreas, especializações, pós-graduações...


Hoje você começa uma faculdade, termina cinco anos depois e descobre que precisa estudar mais três para poder explicar no almoço de família o que exatamente você faz.


Mas essa conversa também serviu para provocar uma coisa importante: quando foi que decidimos que para escrever também era preciso pedir autorização para uma especialidade?


Porque a crônica nasceu justamente desse sujeito que circula pelo mundo. O médico pode escrever. A professora pode escrever. A aposentada pode escrever. O estudante pode escrever. Quem pega ônibus pode escrever. Quem fica em casa pode escrever. Quem passa a manhã observando as pessoas pela janela também pode (embora talvez os vizinhos devam ser avisados).


Para escrever crônica, antes de ser especialista em literatura, talvez seja mais importante ser especialista em prestar atenção.


Um fato. Quatro crônicas. E um pequeno bug coletivo.

Então chegou o exercício (e era só o exercício de aquecimento).


A proposta parecia simples. Apresentamos um único acontecimento cotidiano: Alguém discutiu alto no mercado.


A ideia era a partir deste fato, escrever quatro pequenas frases que fossem ponto de partida para uma crônica.


  • Uma crônica de Humor

  • Uma crônica de Reflexão

  • Uma crônica com questões sociais

  • Uma crônica lírica


Um fato. Quatro possíveis crônicas.


Foi aí que algumas cabeças começaram a dar aquela travadinha básica. Cheguei a ver fumaça levantando.


Porque estamos acostumados a pensar que uma história está dentro do acontecimento.


Mas não necessariamente.


A história também está em quem olha.


Duas pessoas podem estar sentadas no mesmo banco, presenciar exatamente a mesma cena e voltar para casa carregando histórias completamente diferentes.


E talvez aí esteja uma das coisas que mais queremos investigar neste módulo.

No primeiro mês perguntamos:


Quem sou eu quando escrevo?

Agora começamos a perguntar:


Como aquilo que eu sou muda a maneira como vejo o mundo?

E, consequentemente:


Como muda aquilo que escrevo sobre ele?

Desce daí, criatura

Também percebemos que escrever crônica exigiria da turma um movimento um pouco diferente.


Porque poema permite uma coisa. Fantasia permite outra. Romance, conto, ficção, fanfic...


Cada gênero cria um tipo diferente de pacto entre quem escreve e quem lê.


Mas a crônica tem uma característica que nos interessa especialmente agora:

ela pede que a gente desça um pouco do pedestal imaginário da “alta literatura”.


Sabe aquele pedestal dourado onde colocamos a figura do ESCRITOR e da ESCRITORA?


A criatura atormentada, sentada diante de uma máquina de escrever esperando a inspiração chegar enquanto pensa sobre a existência humana e provavelmente fuma olhando pela janela.


Pois pode descer.


Tem uma senhora brigando pelo último mamão na feira e talvez nossa literatura esteja justamente ali.


Antonio Candido escreveu sobre essa aparente pequenez da crônica. Para ele, justamente por não ocupar o lugar dos chamados “grandes gêneros”, ela consegue ficar “perto de nós”. E é nessa proximidade, falando de coisas aparentemente pequenas e numa linguagem próxima da conversa, que pode alcançar profundidade.


Achamos bonito isso.


Porque a crônica não precisa olhar o mundo do alto. Ela pode olhar ao rés do chão.


E talvez seja exatamente isso que torne o exercício tão diferente para quem está acostumado a inventar universos inteiros.


Na fantasia, podemos criar um dragão. Na ficção científica, destruir o planeta. No romance, atravessar três gerações de uma família.


Na crônica... alguém deixou cair uma sacola de laranjas na calçada e agora você tem que descobrir por que diabos aquilo ficou na sua cabeça.


Setembro será o mês das coisas pequenas

É isso que vamos perseguir nas próximas quartas-feiras. O banal. O cotidiano. A conversa escutada pela metade. A pessoa no ponto de ônibus. A notícia que incomodou. Aquilo que nos fez rir. Aquilo que deu raiva. Aquilo que aconteceu tão rapidamente que quase não percebemos.


Porque o nosso segundo módulo é EU / MUNDO, mas talvez exista uma palavrinha escondida entre essas duas coisas: olhar.


Existe o mundo. Existe você. E existe a maneira como você olha para ele.


É desse encontro que pode nascer uma crônica.


E foi impossível não terminar essa primeira aula lembrando justamente de Antonio Candido falando sobre a capacidade que a crônica tem de se aproximar da vida comum. Em seu célebre ensaio A vida ao rés-do-chão, ele escreve:

Por meio dos assuntos, da composição aparentemente solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo dia.” 

Talvez setembro seja justamente isso para nós: um mês para treinar a sensibilidade de todo dia.


Então, se você também quiser descer do pedestal, prestar atenção nas pequenas coisas e descobrir quanta literatura cabe numa quarta-feira aparentemente comum, chega junto.


O curso do É Dia de Escrever acontece todas as quartas-feiras, das 10h às 12h, na Casa de Cultura do Butantã.


Pode trazer caderno e o celular. Pode trazer aquela história que você acha que não dá história nenhuma. A gente dá uma olhada nela juntos. Porque, no fim das contas, o mundo continua acontecendo enquanto a gente está distraído.


E todo dia continua sendo É DIA DE ESCREVER!

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