• Isabella Gualberto

Conto: O Sol Não Nasce Para Todos, por I. G. Marchetto

Há muito para se ver quando se é invisível. Todos os dias José passa, a orelha colada no telefone, os olhos robóticos e sem brilho. José não sabe que vive e é contador. Trabalha no escritório da esquina, de onde, toda vez que a porta da recepção é aberta, exala um cheiro de infelicidade. Ele tem um intervalo de quinze minutos à tarde e desce para a praça com uma roupa diferente. Fuma dois cigarros, olha para o chão e pensa em nada por três minutos antes de retornar à sua cadeira surrada. José é casado, mas a esposa não sabe que se deita todos os dias com um fumante, porque vícios quase estragaram seu casamento e José prometera que seria santo e porque José toma muito cuidado em trocar de roupa na hora de saída, escondendo qualquer traço do crime. Todo bairro tem um José, e é estranhamente engraçado como os cidadãos não têm essência em São Paulo.


Já fui sonsa como a mulher de José. Eu tinha um Daniel, um rapaz de olhos gentis e falas carinhosas. Me prometera beijos de cinema e arrepios incontroláveis e cafunés sinceros. Me ensinara as diferenças entre estalagmites e estalactites e me contara que em cavernas há peixes cegos. Se eu fechar bem os olhos, ainda consigo sentir sua risada abafada pelo meu ombro. Se os abrir, tudo que sinto é raiva. Raiva da mediocridade e da inocência. Josés, Daniéis, homens são todos cópias de um molde mal feito. Deus lhes deu a incrível capacidade de mentir perfeitamente e de coagir uma mulher somente para aquecer seus pénis flácidos em tecido vivo, e, por esse e outros fatos, Deus é um enorme cuzão.

Agora, tudo que resta é desprezo e este ser irritante que me enche a barriga. Não sei se, até esta coisa sair de mim, conseguirei entender que é uma vida. Tenho ódio dele. Se pudesse arrancá-lo com minhas próprias mãos, eu o faria. Ele me privou de descobrir o que, afinal, são funções quadráticas e de sentir a frustração de não saber qual faculdade escolher. Não te quero, filho. E sinto muito por isso. Mas estou tentando te libertar de mim, porque, certamente, seria um destino horrível para você.


Moro no indefinido. Moro nas ruas escuras, junto ao cheiro permanente de mijo e de repulsa. Moro no medo de acordar e no medo de dormir. Às vezes, dou sorte, e do céu não cai um sereno. Às vezes, quando a claridade bate rudemente nas minhas pálpebras, meus sapatos sumiram, e tenho de arcar com a dor do asfalto quente até que alguém me ceda um chinelo encardido. Morar sem teto dói, mas te faz inteligente. Consigo diferenciar um José de um Daniel de vista. E, certamente, consigo ver a ruindade em alguém só pelas linhas de expressão. Morar nas ruas te faz viver em um estado eterno de alerta, e, pouco a pouco, tua sanidade escorre junto à sujeira pelo bueiro. Porque não te veem, e você está ali, pouca carne e muito osso, de pé, com os olhos famintos, a barriga roncando, o coração se apertando, o sangue saindo por buracos que você nem localiza mais, mas você não existe. Você não existe no mundo, e isso é a maior contradição física, social e etecetera que há.


Nem sempre foi assim. Já tive vestidos rodados, um aquecedor de ar no quarto e diferentes marcas de perfume espalhadas pelo armário. Já tive um telefone de última geração e livros infinitos em estantes simétricas e cheirosas. Já tive muitas coisas, e a porra da irrelevância dos bens materiais e da propriedade privada, que eu, tão hipocritamente, lia em grandes obras, nunca fez tanto sentido quanto agora, que não tenho nada. A gente não precisa de nada que não seja um pouco de pão, água e paz para dormir.


Viver enclausurado, em um mundo supérfluo e arrogante pra cacete, como eu costumava fazer, é sufocante. Você se acostuma com grandiosas missas, com a visão do seu pai discursando para centenas de pessoas, com golas altas, com sorrisos políticos e com a visão da periferia pela janela de um carro de seiscentos e não sei quantos cavalos. Você se acostuma com a pobreza e com a imperfeição e com a impossibilidade de se assustar com a quantidade de mortos em uma sexta-feira na favela. Você se acostuma com o fato de que a sua educação está toda errada e com o pensamento de desprezo pelo neguinho sujo que conquistou uma roubou sua vaga suada no Largo São Francisco. Você se acostuma a ser um imbecil, e, apesar do sufoco, eu solto um suspiro aliviado por perceber que me livrei disso tudo.


Cresci com pais devotos. Adivinhe a surpresa da gravidez aos quinze. Daniel deu fuga, e minha irmã cerrou os lábios para mim, mas seus olhos eram grosseiros, afiados e violentos. Há um certo ponto na vida de uma adolescente em que é preciso parar, tomar um fôlego, e fingir calmaria, porque o próximo passo é na terra adulta. Saí de casa numa segunda-feira, às seis e seis, que era um número sagrado pra mim.


No primeiro dia, minha garganta secou quando o sol se despediu. No segundo, roubei uma faca do último restaurante que eu passaria, porque todo o meu dinheiro acabaria. No terceiro, percebi que não estava sozinha. Tinha a responsabilidade materna de não morrer, de sobreviver por aquela criança, porque eu queria mostrar à minha irmã que seria mais mulher que ela, porque eu queria que Daniel arregalasse os olhos quando me visse lá no topo, porque eu queria ganhar essa luta por tantas outras que sorri na derrota. Porque eu queria que esse moleque ainda cego e com um coração ridículo na minha barriga tivesse a chance de marcar as ruas nas quais eu pisava agora. Mesmo que longe de mim. Mesmo com ódio correndo nas veias pela mudança brusca que ele me fez agarrar.


Então eu fui. Com medo e no medo, andei descalça por asfalto molhado e terra quente, e andei calçada por mediocridades e cuspes e xingamentos. Andei em direção ao noroeste, para Franco da Rocha, a terra cinzenta e barrosa que acolhia a alma mais brilhante que já vi.


Tia Marina é artista. Acho que isso já define muito aquela mulher. Tinha manchas de tinta seca coladas no antebraço e no cabelo, faixas coloridas e alegres que nunca saíam, só mudavam de tonalidade. Era forte, os braços todos tatuados, cabelo raspado, e beijava mulheres. Essa última atitude, que ela fazia com muito orgulho e sorriso, representa a força inabalável que ela guardava no peito, sem medo da sociedade tradicionalista brasileira e com muito amor pela família que a rejeitou e que compartilhávamos. Aos meus doze anos, eu fugia de casa para tomar suco de laranja com ela na padaria da esquina e aprender sobre a poesia de Hilda Hilst e a beleza do primeiro álbum do Cartola. Ela sempre me presenteava com um pincel, e contava uma história sobre o quadro que ele pintou.


Se levanto todos os dias do papelão jogado na calçada, é pelo amor que tenho por ela. Sei que o que sinto por ela é de outras vidas. É algo borbulhante, frio, quase vil. Meu peito se aperta quando ela ri de algo que falo. E sempre tenho vontade de chorar rios de borboletas quando ela me abraça forte. Se existe alguém que pode me acolher e pegar na minha mão pra percorrer essa vida inesperada de mãe e de mulher, é Tia Marina.


Enfim. Hoje é sexta. Está anoitecendo. Significa, para uma mulher, especialmente para uma mulher sem-teto, que o cuidado deve ser dobrado com homens bêbados que arregalam olhos transbordando malícia. Significa atenção e cuidado dobrados. Meus sentidos estão eriçados, mas também estou cansada e com as retinas ardendo. Quero chegar até a Lapa e dar um jeito de me enfiar no trem, o que seria um trajeto fácil para um homem, mas surgem cinco, dez, quinze obstáculos no meu caminho só por ter uma vagina. Às vezes, queria estalar os dedos e destroçar as gargantas e os pinguelos de todos os homens que nos ameaçam magicamente.


E os dois que se prostram à minha frente seriam os primeiros. Ambos são altos, mas o da esquerda tem uma barriga gigantesca, o que deve me dar uma vantagem quanto à agilidade. O outro é magrelo, com olhos fundos e escuros, vítima de drogas que correm pelas mãos do povo da rua. Quando se convive entre eles, você passa a sentir o cheio dos viciados. Ele me dá um sorriso torto, um mostrar de dentes amarelados e peludos. O amigo tira uma faquinha do bolso, os olhos esbugalhados. Vejo um par de ratos, bichos que mal se mantém sobre as patas e que roem as beiradas de tudo.


- Delícia. - diz o drogado, entortando a cabeça enquanto me olha - O que você tem nessa mochila, hein?


A verdade é que eu tinha uma maçã e uma garrafa de água pela metade que eu roubara de um executivo no centro. - Nada que valha a pena enfiar essa faca em mim, parceiro. Toma essa merda.


Tiro a mochilinha dos ombros e jogo para o gordo, que se abaixa com dificuldade para pegá-la, e vasculha o interior. Ele balança negativamente a cabeça para o outro, larga a bolsa e levanta a faquinha novamente. Eles se aproximam com passos lentos e arrogantes.

Eu recuo com passos defensivos. Tiro do cós da calça a faca serrilhada que roubei, e a seguro com toda a minha força, esperando que isso mostre algo a eles.


Mas não mostra nada. Em dois, três, quatro passos eles chegam perigosamente perto, e é agora ou nunca. Eu me viro e corro. Corro para longe do destino, corro para qualquer espaço, corro xingando a porra da barriga e forçando a adrenalina correr pelo meu sangue também. O vento sempre parece estar contra você em horas como essa.


- Não adianta fugir, caralho! - sei que é o magrelo que grita porque a voz dele parece estar mais perto. Em segundos, eu consigo ouvir a respiração ofegante dele, e sei que vou perder essa briga, mas, Deus, se você existe mesmo, me salva dessa, pelo menos, porra.


Caio no chão, a cara ralando no asfalto da rua, um latejar percorrendo todo o meu corpo. O drogado ri diabolicamente, vasculhando meus bolsos e transformando a expressão divertida para uma furiosa quando nada encontra. Eu tento agarrar seus braços quando as mãos dele se dirigem à minha calça, mas o filho da puta enfia o cotovelo no meu nariz com toda a força e tenho certeza de que é isso, vou ser violada por um cracudo, morta numa valeta, que nem naquele livro que costumava me assustar do Stephen King.


Ele arranca minha legging, já rasgada e imunda, e abaixa a calça remendada. A esse ponto, o gordo segura minhas mãos e pressiona meu rosto no chão, rindo, gargalhando, feliz feito criança com doce na boca. Sinto um rasgar, um corte, uma violência, uma raiva e uma impotência e é isso ser estuprada? Deus, não precisa nem me salvar, só me mata de uma vez só, por favor. Eu tento fechar as pernas, chutar o magrelo, mas não posso fazer muito porque dói como o Diabo e eu só consigo chorar oceanos e gritar em meio ao afogar.


- Ai que gostoso, pode se mexer o quanto quiser, putinha, que eu gosto, fica bom, você tá gostando, né, as perninhas tão tremendo, tá toda doida pelo meu pau, tá vendo, Gil? - ele ri com o outro - Não adianta berrar pra ninguém não que só nóis tá ouvindo e nóis sabe que por dentro cê tá gostando, isso que homem quer, isso que você quer, cachorra, aí, Gil, quer meter uma aqui?


- Tô de boa só olhando.


Sinto algo percorrer minhas pernas e tenho certeza de que é meu próprio sangue. Não posso fazer nada. Tem alguém dentro de mim e eu não consigo jogá-lo para fora. Tudo arde e tudo sangra e tudo irrita e tudo o que posso fazer é fechar os olhos e rezar para que isso termine logo. Deus, você é um filho da puta. Deus, eu quero que você se foda.


Não sei quanto tempo se passa. O magrelo sai de mim, cospe na minha cara e ri junto com o gordo. Eles cochicham alguma coisa. Algum tempo depois, eles me chutam com força, com um prazer doentio. Quando percebem que não abro os olhos, eles se afastam, correndo sem culpa, mas com receio.


Eu não me levanto. Fico deitada ali, meio corpo na rua e meio corpo na calçada, sob a escuridão, tentando morrer. Passam-se minutos, horas, espero o dia clarear só para me virar e vomitar tudo que havia no meu estômago. Eu melo os meus cabelos e, enjoada com a minha própria sujeira, me forço a sentar. Dói. Não sei como ainda respiro com todo aquele sangue espalhado no concreto. Junto toda a força que tenho no peito e ergo meu punho, o dedo médio em riste, para o céu, e grito todo o meu ódio, quero que Deus tome na bunda, quero que tudo acabe em uma esplendorosa explosão, quero viver em paz, quero que Gil e Cracudo morram dolorosamente, quero que todos os pastores se revoltem e que todos os meninos bonitos parem de engravidar moças inocentes. Quero chegar até Tia Marina e o depois a gente arruma.


Eu me levanto, guiada só pelo amor cego e pela compaixão materna. Ergo a legging e respiro fundo seis vezes antes de dar o primeiro passo. A partir daqui a vida adulta é pesada. A partir daqui eu entro no índice das trinta e três mulheres estupradas diariamente em São Paulo. A partir daqui eu sou mãe e mulher.


Um passo após o outro, eu alcanço a estação da Lapa num ritmo lento. Estamos na metade do dia, o sol queima meu couro cabeludo, a barraquinha de cachorro-quente está lotada. Eu sei que há um buraco no muro da estação porque eu ouvia meus companheiros de rua conversarem sobre como chegar no abrigo da zona oeste. Caminho para a esquerda, o braço colado na parede fria, esperando chutar algum concreto quebrado.


Longe da entrada, coberta por um galho, encontro uma abertura estreita, grosseira. Consigo passar por pouco, a barriga grunhindo, friccionando o metal da sustentação. Lá dentro, tenho que andar por um caminho estreito até a estação e subir as escadinhas serviçais. O pessoal que espera o trem me encara com desgosto, a maioria se afasta.


Ou você é invisível ou você é desprezado. Em metrôs, trens, ônibus, mercados, vocês nos veem, mas sempre com rancor, com desaprovação. Não tenho direito ao mesmo mundo que você vive. Não tenho direito de me locomover pela cidade ou de comprar um salgado na padaria. Tudo porque sou pária, sou selvagem, sou um erro na sua matrix.


Mas já vivi o bastante para não temer esse olhar. Entro no trem com o queixo erguido, me sento ao lado da senhora que bufa o trajeto inteiro e converso com o vendedor ambulante que está na luta de levar uma fralda pra filha pequena em casa. Pela janela, vejo a linha imaginária que divide São Paulo da Periferia. Aqui sou compreendida no perrengue. Tenho companhia para odiar o governo e a vida que eu levava.


Franco da Rocha me alcança. Desço com a mão na barriga, falando com essa coisa que me enche e me força a dar o próximo passo. Vejo menos Josés aqui. Pela primeira vez, encontro o Pedro, o segurança de banco que chega tarde em casa e prepara o almoço para o filho comer antes de ir para a escola no dia seguinte. Pela primeira vez, tenho esperança na dedicação e no sonho de mundo melhor.


Tia Marina mora em uma casa verde com um cachorro branco. Nunca vim para cá, mas ela sempre descrevera seu lar com essas palavras, e é como se fosse minha casa. De certa forma, Tia é minha casa. Do alto da estação, eu a vejo, verde como limão, reluzente, numa esquina, subindo a rua. Conforme me aproximo, vejo o cão enorme, que me baba carinhos e pede por um afago entre as orelhas.


Toco a campainha.

Ouço uma risada se juntar a outra lá dentro.

A porta se abre.

- Bença, Tia.




I. G. Marchetto participa do Grupo de Mulheres do projeto É DIA DE ESCREVER.

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