• Sofia Costabile

Conto: Jardim Suspenso, por Sofia Costabile


O aparelho rangeu alto ao ser ligado novamente. Ela vive logo abaixo do sistema de aquecedores de um pequeno hotel de cápsulas.

Toda manhã, ela desperta às oito em ponto, quando o aparelho é posto para funcionar ( seu cubículo é próximo o suficiente da superfície para que seja possível ouvi-lo). Normalmente, não seria impossível para Stef permanecer na cama por mais tempo, apesar do barulho, mas hoje se levanta com pressa, tropeçando nos próprios sapatos, mal se preocupando em engolir uma barra de frutas insípida e artificial. Este é o dia marcado para o serviço, e portanto não há tempo a perder.


Terminando de enfiar a cabeça pela gola alta da camiseta, ela sai pela única porta em direção aos elevadores, mas não vai aos Bairros, nem ao Mirante. Em vez disso, desce dez níveis, o ar estagnado, quente, enchendo suas narinas quando a porta se abre com um estalo e um rangido.


Os corredores se desdobram a sua frente, desembocando um no outro em fileiras de portas silenciosas, e Stef segue curva após curva até uma porta particularmente bem trancada, na qual bate uma vez, depois três em rápida sucessão. Espera.

“ Um Décimo?” uma voz soa por trás das trancas. “Três sobre Dez.” Stef responde “ Vim fazer o que você mandou. Três Doze Avos está?”.


Três trancas estalam em resposta.


A sala é escura e parece maior do que realmente é, sem nenhuma mobília além de algumas cadeiras e uma mesa embutida, na qual está sentado um homem e uma mulher, que é Três Doze Avos.


“ Eu estou.” Ela diz “ Mas Um Décimo ainda não chegou.”

“ Mais cinco minutos e vocês vão sem ele.” É a vez do homem, que todos chamam de Vinte sobre Vinte, falar esfregando a barba preta “ Não estamos com tempo”.


Porta-se como se fosse dono dos níveis inferiores e de certa forma é verdade.

Stef se recosta na porta novamente trancada, e ali espera por cinco minutos, até Três Doze Avos se erguer de sua cadeira com uma espreguiçada.


“ É... Acho que ele não vem.” Estica o braço debaixo da mesa e puxa uma bolsa de alças largas “ Por qual lado é para subirmos?”

“Pelo elevador do distrito 6, na altura do 330.” Diz Vinte sobre Vinte, estendendo com as duas mãos um par de baterias carregadas para os dispositivos de choque alterados que cada uma leva consigo “ Não tem tanto movimento por lá essa hora” Ele se remexe um pouco na cadeira.

“ O ponto de encontro mudou para o jardim 32. Não o 36!” Diz, frisando bem as palavras “ Aquele está interditado. Qualquer um andando muito perto de lá seria parado pela segurança.”

“ Voltem aqui antes de iniciar a segunda parte do trabalho.” Vinte sobre Vinte se debruça sobre a mesa, apontando com um dedo severo “E se encontrarem Um Décimo, digam para o filho da puta que é melhor ele aparecer ainda hoje!”


Stef faz suas notas mentais ( não é permitido anotar nada do que se conversa ali) e em dois passos está novamente do lado de fora, lentamente caminhando ao lado de Três Doze Avos.


Se chama, na verdade, June, e Stef deve tudo que sabe sobre trancas e motores a ela.


Lado a lado, June, uma mulher baixa e gorda, de pele negra e cachos castanhos presos em rabo de cavalo, que caminha com passos certeiros, se parece muito diferente de Stef, que tem que se abaixar para passar por algumas portas com seu corpo longo e fino, o cabelo ruivo e liso caindo o tempo todo sobre o rosto moreno e sardento.


Porém, cruzando os corredores abafados em direção ao elevador, ambas sabem que de fato não são.


“Estranho Um Décimo não ter aparecido. Eu o vi ainda ontem e ele parecia bem.” Stef pensa em voz alta, procurando preencher o silêncio do trajeto.

“ Bom…Eu ouvi falar de umas inspeções que acabaram em prisões alguns níveis acima.” June olha rapidamente para o lado “ Quer dizer, não que eu ache que ele tenha sido levado, mas talvez ele tenha ficado com medo de sair? Não sei…”

Stef pondera por um instante. De tempos em tempos, coisas assim realmente acontecem, mesmo perto da superfície.

“Pode ser, eu acho. Ele não mora muito longe de mim, vou ver se o encontro mais tarde…”


A conversa morre ao entrarem no elevador, que sobe doze níveis, aos trancos.

É um horário estranho para se dizer estar indo ao trabalho, mas isso facilmente justificaria uma corrida pelos halls do térreo sob o pretexto de estarem atrasadas, se esta se fizesse necessária.

A porta do elevador se abre para um largo corredor de piso frio liso e pé direito alto, que se torna mais e mais movimentado a medida em que avançam em direção à praça principal onde se encontram os primeiros jardins.


Stef não gosta de subir para os jardins suspensos, o que soa estranho para qualquer um e para ela mesma mais do que todos.


Quando era criança, quando ainda vivia em níveis onde ninguém se atreve a falar mais alto do que um sussurro, ela sonhava em viver caminhando como os habitantes da superfície em seus jardins em suspensão, tanto quanto qualquer uma das crianças uniformizadas que faziam parte do que uns chamavam com muita vontade de projeto em prol da Humanidade.


Por outro lado, Stef pensa, uma vez tirada de lá lhe foi necessário reinventar a si mesma, montando e desmontando aquilo que foi deixado para ela, o pouco que lhe foi permitido. Talvez nisso se incluam as plantas crescendo uma sobre a outra pelas paredes.


Apertam o passo entre os transeuntes, a bolsa que June carrega pendendo leve e suspeita apesar das camadas de casacos e jornal que ela colocou ali para disfarçar. Ela a aperta contra si no momento em que embarcam em outro elevador.


Este é cilíndrico e tem parede de vidro, permitindo que vejam , na extrema esquerda, a réplica do planeta Terra, alinhada em escala com uma de seu próprio planeta, que fica na praça em frente ao Museu da Agricultura, e Stef estica o pescoço para captar a exata diferença entre seus tamanhos.


Antes de conhecer Um Décimo e June, que também não tinham parentes, eles a chamavam de Gea e diziam que seu destino jazia na Terra.


Ou no que quer que tenha restado na Terra.

Stef não gosta de lembrar, mas algumas vezes as memórias parecem se forçar a serem lembradas.


Contra o piso branco ela vê as pequenas formar escuras caminhando pra lá e para cá. Havia muitos deles. Demais para serem comportados para sempre em uma única base espacial que cresce sempre para dentro do solo. Os números que caíram durante séculos agora voltam a crescer. Para cima, para baixo, para os lados.


É preciso encontrar mais espaço.


E a esperança da Humanidade está em um lugar fora dali.


June lhe dá um cutucão, como que para acordá-la. A porta se abre para o jardim 32.


Ele não é tão espaçoso nem tão diverso, mas é quieto, não chegando a ser vazio, mas frequentado na medida certa.


Sentado em uma das mesas circulares, na maioria desocupadas, está um rapaz loiro, branco e de faces rosadas, que dão a ele um aspecto estranho, fazendo com que pareça mais novo do que é.


Ele acena para as duas. Tem uma pilha de pastas grossas e uma bolsa igual a de June, só que esta parece estar cheia.


O rapaz olha por cima do ombro de June quando elas se aproximam, Stef acha que ele quer perguntar sobre Um Décimo, mas ele não o faz.


Discretamente, ele aponta para si mesmo,

“ Sete Oitavos”.

“ Pff. Pra mim isso é tamanho de meia.” June diz, sorrindo “ Mas combina.”


Sete Oitavos ri enquanto as duas se sentam.


Ambas as bolsas são postas no chão embaixo da mesa, onde a câmera de segurança mais próxima não às captará.


“Então, ainda estudando?” June pergunta com um tapinha em uma das pastas.

“Estou sim, lá no jardim 41. Muitas plantas medicinais naquele lado.” Sete Oitavos movimenta as bolsas, trocando a sua pela de June com as pernas.


June prende a bolsa trocada entre os pés.


Stef fixa o olhar no rosto do rapaz quando pergunta:


“Ah é? Dessa eu não sabia. Tipo o quê?

“Bem…” Sete Oitavos abre um pouco uma das pastas, para que só as duas vejam uma pequena flor roxa. “ Cresce bastante Salvia officinalis por lá. É a que eu tenho estudado mais, porque é boa para tratar problemas respiratórios e essas coisas...Fora isso, a flor é bonita também.” Por um minuto nervoso ele não diz mais nada e Stef pousa uma mão muito consciente no dispositivo de choque que carrega, torcido e mudado para fazer estrago. Não quer ter que levar esse moleque para baixo com ela.

“E?...Só cresce sálvia?”


Sete Oitavos sorri enquanto abre outra pasta, revelando uma folha curiosa, que parece se desenrolar como um tapete.


“ Não! Lógico que tem mais coisas, mas metade é só Nephrolepis exaltata.” Movimenta de leve a mão na direção da folha esquisita “Serve pra porra nenhuma, mas o pessoal acha bonito. E como pega fácil, todo jardim tem.” Com isso, fecha a pasta sem fazer barulho e acena com a cabeça para Stef, que acena de volta. A conversa, no fim, havia corrido como esperado e nada aponta para uma falha.


June tenta lançar uma porção de perguntas sobre parentes inventados, dando a deixa para que, com uma olhada furtiva para o relógio que também é onde se mantêm as identidades, Sete Oitavos possa se levantar pedindo licença, levando consigo a mala trocada onde enfia todas as pastas.


June agarra a mala e se levanta. Não há tempo a perder ali. Stef sabe.


Descem outros três andares antes de espiar dentro da bolsa.


Três ramos de samambaia, enrolados com cuidado para não serem esmagados. Ao lado, está a sálvia. Tudo escondido sob várias camadas de camisetas e coisas velhas.

Transportar plantas vivas é mais difícil e arriscado, mas ninguém disposto a pagar quer apostar na incerteza das sementes.


Stef cutuca a samambaia.


“Cuidado para não machucar as folhas!” June puxa a mão de Stef para fora e fecha a mala.

“ Não vou machucar nada! Só queria ver.”


Cruzando mais uma vez o pátio central, as duas enveredam por um corredor onde faltam algumas lâmpadas e entram em um elevador diferente daquele no qual vieram pela manhã.


“Sabe, se eu pudesse, acho que trabalharia com plantas.” June diz para quebrar o silêncio “ Digo, com plantas só pelas plantas.”


Stef franze o cenho. Não consegue pensar em um estudante de botânica ou jardineiro que não esteja ali especialmente para furtar alguma coisa. É para isso que gente como Sete Oitavos serve.


“ Não vejo. Sempre te imaginei trabalhando com fios. Do tipo que tem nas baterias.”


June dá de ombros, com a mala na mão.


“Talvez eu fizesse os dois! Se não existisse o problema...”


Stef suspira. O problema é que para fazer tudo isso é necessário uma identidade, com um número de registro cadastrado. Nenhuma das duas a tem. As pulseiras-relógio-identidade que usam servem para despistar a atenção de guardas, que as parariam se não estivessem usando nada.


Sem uma identidade, dependem de gente que possa protegê-las, ou lhes arranjar algum tipo de serviço informal. Gente como Vinte sobre Vinte, que se cerca de pessoas como Stef, como June, como Um Décimo, e muitos outros, que podem sumir em um lugar onde nada some por inteiro, como se jamais tivessem existido.

Em troca, estão presos pelas canelas, com medo de serem descobertos, presos e expulsos durante uma futura inspeção.


Stef suspira.


“Acho que eu gostaria de estudar alguma coisa sobre as estrelas.”

“Sério?” June ri “ Por essa eu não esperava.”


Stef se surpreende rindo também, apesar de si mesma.


“ O quê? É sério!”


O elevador para treze níveis abaixo do subsolo e se abre com um som familiar.


Contornado curva após curva, pela segunda vez no dia se deparam com a porta especialmente bem trancada, que se abre assim que batem. Vinte sobre Vinte e se senta na cadeira, colocando os pés sobre a mesa.


“E então?” pergunta “ O moleque deu trabalho, ou resolveu ser esperto?”

“Trabalho nenhum.” June diz, depositando a bolsa em cima da mesa “ Já checamos. Não erraram dessa vez.”

“Bom.” Vinte sobre Vinte estende a mão para a bolsa e silenciosamente, sem pressa, começa a retirar os conteúdos debaixo das camisas.

“...Não encontramos Um Décimo.” Diz Stef, sem muita certeza se deve tocar no assunto.

“ Não interessa. Já mandei um pessoal atrás dele.” Três ramos de samambaia são jogados na superfície da mesa.


De costas, de maneira que Vinte sobre Vinte não pode ver, June faz uma expressão de desgosto.


Stef engole em seco, e decide não perguntar mais nada.


Parecendo satisfeito com as plantas que recebeu, Vinte sobre Vinte ergue o olhar, alternando-o entre as duas mulheres,


“ Não voltem mais aqui hoje. Daqui duas hora e meia, se encontrem no nível um. O elevador próximo ao número 13.”

Desprende uma pequena flor de sálvia, e arranca um pedaço de pétala.

“ A segunda parte está em curso.”

***********


A essa hora do dia, ela sabe que algumas memórias estão decididas a serem lembradas.


Ela pensa nisso enquanto caminha até o elevador próximo a seu cubículo.


Durante as duas horas que passou dormindo, teve sonhos vívidos sobre janelas, estrelas e trancas.


Tudo isso, ela sabe, pelo simples fato de estar subindo para o Mirante.


Quando o elevador chega, June já está lá dentro. Ela sorri para Stef.


“Seu rosto está todo amassado.”


Stef passa uma mão inconsciente sobre a bochecha.


“ Eu dormi. Ainda bem que não perdi a hora.”

“Ou Vinte sobre Vinte mandaria sua galerinha te arrastar para fora da cama.”


Encolhendo os ombros, Stef faz uma careta amarga, que é logo substituída por um franzir de sobrancelhas preocupado.


“ O que será que foi feito do-”


A porta do elevador estala e se abre. Encostado na parede oposta, está Um Décimo.


Seu nome real é Nat, tem um jeito exasperado de andar e se portar, passando as mãos pelo cabelo castanho, ou cruzando os braços com força suficiente para marcar a pele que parece sempre pálida e apagada.


Hoje, o rosto jovem, quase de garoto, exibe um grande hematoma abaixo do olho direito e um nariz ainda vermelho, sangue seco despontando por uma narina. Os lábios estourados em um canto se apertam.


June espera a porta se fechar com os três dentro para se dirigir a Stef,


“ Achamos…”


Ela olha então para Nat, e pergunta,


“ Te viraram do avesso, hein?”


Ele dá uma bufadela


“É claro…” não é preciso mais incentivo para que ele continue a falar “ Estava voltando para casa ontem, mas dei de cara com dois guardas perto dos elevadores. Era tarde, então resolveram que iam me parar.” Nat esfrega de leve o nariz machucado “ Fiquei com medo de eles descobrirem que não tinha nada na identidade, então fugi. Me seguiram por um tempo, mas consegui me perder deles.” A mão passa do nariz para a mancha roxa perto do olho “ Não quis ir para casa depois disso. Andei um pouco perto dos Bairros, achei outro elevador e fui descendo. Fiquei nisso a noite inteira. Finalmente acho que dormi lá pelo nível cinco. Foi lá que me acharam mais tarde.” Sua expressão tristonha carrega-se, e lentamente, tira algo metade para fora do bolso. Na palma de sua mão, está um miúdo retângulo preto: um dispositivo de armazenamento de dados codificados, compacto e protegido por todo tipo de código.


Nenhum dos três entende exatamente a natureza ou a importância das informações contidas nele, e não estão certos de que gostariam. Há coisas, em uma situação como aquela, que não se deve de fato querer saber.


De qualquer forma, é importante o suficiente para custar mais de três ramos jovens de plantas ornamentais extraídas dos jardins suspensos e importante demais para ser carregado no bolso da calça.


June e Stef encaram alternadamente o rosto torcido de Nat e o objeto em sua mão.


“ Te deram isso aí…” June começa, devagar, sem tirar os olhos do dispositivo compacto “ Para você guardar no bolso?”

Nat também fita o objeto, engolindo em seco,

“ Mais ou menos...Bom, sim.” Sua palma brilha com suor ao redor do Dispositivo, e ele o enfia novamente no fundo do bolso “Disseram que, ‘para compensar não terem tempo de quebrar minhas costelas dessa vez’, é responsabilidade minha carregar essa coisa em segredo, daqui de baixo até lá em cima. Só que sem mala, nem nada.” A expressão carregada e tristonha volta a aparecer em seu rosto quando diz “ É para me tirar do eixo. Me deixar nervoso.”


Disto não há dúvidas.


Stef olha para o teto do elevador, sem querer olhar para ninguém.


“ É sim. Não me surpreende. Mas me deixa nervosa, sinceramente.”

“E como…” June suspira.


Nervosos, os três. Não enraivecidos ou revoltados, mas nervosos. Afinal , têm de saber com que tipo de pessoa estão lidando, e sabem que nada além do nervosismo é adequado ao se lidar com Vinte sobre Vinte.


Qualquer outra coisa é uma grande perda de tempo. Não tem obrigação de ser gentil.


É dono dos níveis inferiores, e sabe disso.


E todos sabem disso.


O resto? Tempo perdido.


**********

O elevador se abre perto do pátio principal onde está o grande elevador de vidro, por onde sobem, se espremendo entre diversos outros passageiros, que desembarcam um a um, na medida em que se aproximam do último andar, onde está o Mirante.


Ao contrário dos jardins, Stef gosta de subir para o Mirante. O céu, visto através de uma grande janela côncava, a faz da porção mais agradável de suas memórias.


Entre as outras crianças com nomes de planeta, como ela, havia um garoto mais velho (quase demais para ser criança), que chamavam de Enceladus. Stef nunca teve nenhum irmão, a exceção daquele garoto em particular.


Por anos o falatório incessante sobre o futuro inevitável da vida nas bases construídas por seus ancestrais fora encrustado na cabeça da Stef. Não se passava em dia em que não era lembrada da missão solitária para outro planeta em que todos ali seriam mandados em algum momento, em busca de um novo lar para os humanos. Aqueles adultos diziam que a esperança existia fora dali, e que isso era bom e importante.


Enceladus era diferente deles.


Durante o anoitecer, se reunia com as outras crianças para observar as estrelas aparecerem uma por uma. Então, aproveitando a paisagem, sussurrava coisas importantes de verdade.


“Uma crise vai chegar mesmo se formos. Nada do que eles fazem com a gente aqui vai ajudar. Se a esperança existe, então ela é diferente disso. Tem que ser.”

“O destino da pessoa-planeta é morrer tentando buscar uma saída. Não somos os primeiros e não seremos os últimos. Eu quero esse destino tanto quanto você, Gea, mas somos crianças roubadas, identidade nem nome. Ninguém vai nos escutar daqui de tão fundo no solo. Então vamos até a superfície. Por todo caminho até o primeiro jardim suspenso.”


Stef gostava de ouvir Enceladus falar, e a janela côncava cavada na escarpa da elevação para dentro da qual os níveis inferiores cresciam se tornou sinônimo de coisas importantes de verdade.


Logo, ela gosta do Mirante, a imensa claraboia côncava que ilumina todo o último andar daquela base, com vista para o céu, que a essa hora ainda não tem nenhuma estrela.


É então que se dá conta do som de passos, lentos e seguros no piso liso e brilhante.


A partir de outro elevador, vem ando um homem negro alto e calvo.


Espera alguns instantes antes de dirigir palavra à algum dos três.


“ Olha! E eu pensando que mais ninguém tem tempo de passear pelo Mirante a esta hora.” O homem sorri.


Faz-se silêncio, enquanto Stef vasculha suas notas mentais. O sinal de Y deveria ser um indicativo, mas ela não é capaz de encontrá-lo no homem.


Ao lado, Nat estremece, uma mão sobre o bolso da calça, outra cerrada fortemente.

Nenhuma das duas não sabe ao certo se tenta confortá-lo, ou se espera que o homem continue falando, antes de fazer qualquer coisa.


Estendendo a mão, ele revela uma pequena cicatriz em forma de Y, reta demais para ser natural “ Verne, é um prazer contar com companhia.” Olhando bem para a forma trêmula de Nat, ele pesca um pacote aberto do bolso.


“Você está tremendo, garoto. Quer umas batatinhas?” Ele estende o pacote para Nat, com toda seriedade.


Nat olha para as batatas secas e gordurentas e torce o nariz.


“Não, não. Não. Estou bem. Obrigado.” diz, atropelando um pouco as palavras. Verne ergue as sobrancelhas para ele.

“Você e quem sabe.”


Ele se dirige até uma das janelas menores, profunda o suficiente para caber sentado dentro dela.


Stef estende a mão para Nat, que lhe entrega o Dispositivo.


Lentamente, Stef anda em direção a janela, e se senta, de frente para Verne.


“Três sobre Dez” ela se apresenta, apontando para si mesma.


Verne bufa.


“Aquele safado, ainda chamando seus subordinados por números.”

“Ainda se chamando por números” Stef acrescenta, deslizando discretamente o Dispositivo sobre a superfície da janela, até a mão de Verne, que o pega, se fechando firmemente ao redor dele.

“Sabe, foi uma facada, isto daqui.”


Stef não responde de imediato.


“Foi. Umas três Nephrolepis.”


Verne faz uma expressão de dor, mas não diz mais nada pelo próximo minuto.


De perto, Stef tem a sensação de que o conhece de algum lugar.


“Você não faz ideia que tem que tem gravado aqui não é?” Verne pergunta, indicando a mão fechada com o queixo.


Stef nega com a cabeça.


“Pois deveria, menina planeta.” Ele ri.


Uma onda estranha percorre o corpo de Stef. Em um estalo, a lembrança daquele homem entre as pessoas que ultimamente tiraram as crianças que sobraram de seu perímetro nas profundezas da base vem a tona.


Ela quer negar, mas algo no tom de Verne faz com que ela não consiga.


"...Eu não quero saber." Ela consegue se forçar a dizer.


É perda de tempo...Não importa o que tenha ali, é perda de tempo!...


Ela tenta não prestar atenção na maneira como sente estar tentando convencer a si mesma.


Verne dá um suspiro.


"Quando tiramos vocês lá de baixo, alguns disseram que não queriam vir e mesmo assim vieram."


É diferente, é diferente, é diferente!


Ela não é mais uma daquelas crianças. Subiu até a superfície e não encontrou esperança de nada.


"Olha, vamos fazer o seguinte: vou te poupar dos detalhes, e depois você decide se quer descobrir o resto ou não."


Verne olha atentamente para o Dispositivo em sua mão.


"Isso aqui...Essa lasquinha minúscula cai nos guiar pelos níveis mais baixos desse lugar. Encontramos vocês crianças por pura teimosia e um pouco de sorte." Ele torna a olhar para Stef "Pode ser que desçamos e não encontremos nada. Pode ser que talvez, talvez encontremos os que precisamos para montar nossas respostas, nossas esperanças, escondido em um canto por aí."


A cabeça de Stef enquanto sente suas notas mentais se despedaçando em imprevistos.


Ela não consegue olhar para Verne, sentado com as pernas cruzadas casualmente como se não tivesse dito nada demais, então olha para as próprias mãos, para a luz da claraboia, para Nat engolindo em seco e por fim para June, seus olhos brilhando como ela nunca tinha visto.


Por todo caminho até o primeiro jardim suspenso.


Quando se dá conta, está chorando.


O elevador mais próximo se abre quando um guarda pisa para fora dele.


Tem a aparência que todos os outros tem, botas pesadas ecoando enquanto caminha em direção ao grupo.


O guarda aborda June, que está mais perto, com um tom estudadamente brando e severo, dizendo algo que Stef não consegue entender direito de onde está sentada.


As lágrimas secam em seus olhos na medida em que sente mais do que ouve quando o guarda diz que quer a identidade de cada um, esticando a mão pesada para agarrar a pulseira vazia de June.


O homem mal tem tempo de constatar que ela não tem nada consigo, quando a mão de Nat se move certeira como nunca, atingindo a nuca do homem com o dispositivo de choque.


Com um pulo Stef corre até o guarda com seu próprio dispositivo. Mais uma descarga no peito e ele está morto.


Quando os últimos espasmos desaparecem do rosto do homem, Stef pode ouvir o sangue pulsando em seus ouvidos, um eco da força que aglomera a base em que vivem até o limite.


Ecos da criatura de mandíbula quebrada, sufocando enquanto engole sangue, que envenenou, pisoteou e abandonou o Jardim que lhe deu á luz, suspenso no espaço infinito.

Finalmente, ela desperta de seu transe quando Verne passa dando um empurrão nos três, para que movam depressa, gesticulando para um dos elevadores abertos.


Stef tenta começar a perguntar se June e Nat virão com ela atrás dele, mas a sensação de duas mãos, uma firme e morna, outra trêmula e ossuda, se entrelaçando como raízes a cada uma das suas, ela já sabe que virão.


Os três se enfurnam rapidamente junto a Verne.


O elevador se fecha com um estalo e um rangido e começa a descer.



Sofia Costabile é integrante do Grupo LGBTQIA+ do Projeto É DIA. DEESCREVER

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