• Rodrigo Maria Dias

Conto: A Queda da Princesa, por Rodrigo Maria dias

Já estava há mais de 40 minutos no ônibus e não saiu do lugar. Sentia-se ansioso e aquele trânsito travado o deixava cada vez mais agitado. Saiu de casa cedo, bem cedo, não porque o tempo tivesse dado indícios do temporal que viria, mas porque morava tão longe da região central de São Paulo que já era habitual sair com muito tempo de antecedência pra qualquer compromisso. Estava indo pra um date como um boy que conheceu num aplicativo de caça gay. Se falaram nos últimos dias, na noite anterior o papo evoluiu para um sexo virtual aí foi convidado pra ir no apartamento do crush.

Ele era um sonho de lindo, braços e peito peludos, tinha um rosto quadrado, barba cerrada, furo no queixo e usava óculos, um estilo barbudo de Clark Kent. Usou sua melhor roupa pra esse encontro, saiu com a calça branca que sua mãe lhe presenteou pra passar o reveillon escondida na mochila. Sua mãe iria falar séculos na sua orelha por usar antes. Mas estava lá passada e dobrada com todo cuidado pra não amarrotar. Quando desceu do primeiro ônibus no Largo 13 de Maio o céu ficou escuro e um dilúvio caiu na Terra! Como é de costume tudo parou e pro seu desespero, quando já tinha avistado o segundo busão que pegaria pra chegar, um carro, uma poça e pouco amor ao próximo atrás do volante deixaram sua calça branca respingada com a água cinza. Puta que pariu, que bosta!

Entra no ônibus hesitante, pensou mesmo em mandar uma mensagem, dizer que rolou algum imprevisto, mas não conseguiu, sentou no último banco, respirou fundo e olhou para as pernas pra avaliar a proporção do estrago na calça. Chegaria num primeiro encontro assim? Pensou que se fosse um jeans, nem apareceria tanto... Pôs os fones de ouvido, música sempre melhora o momento. "Sei que você fez os seus castelos e sonhou ser salva do dragão…" Uma amiga sua mandou essa música pra ele em resposta a toda a empolgação dele ao falar do boy que ele conheceu, segundo essa amiga ele vivia num sonho de princesa. Virou os olhos ao pensar no quanto foi brochante ouvi-la dizer pra ir com cuidado, calma, e ouvir pela centésima vez que o mundo não era tão colorido como sua alma sonhadora e propensa à fantasias pintava. Ouviu quieto, mas se arrependeu na hora de ter ligado pra ela. Mó balde de água fria. Justificou a amiga, ela tinha acabado de terminar com o macho escroto dela e estava na fossa. Como explicar que dessa vez sentiu algo diferente? Não sabia o quê. A voz, a forma como eles gozaram na cam um pro outro?

Revê a foto dele, sente um frio na barriga. Liga a câmera do celular e a faz de espelho pra arrumar o cabelo. Tinha alisado naquela semana, passou a manhã toda na frente do espelho e ainda assim não ficou como queria. Tirou várias selfies e teve aquela conhecida sensação de inferioridade, não era alto, nem sempre se achava bonito, achava o nariz grande demais pro seu rosto, não era preto, tampouco branco, sem contar a merda da calça suja…

Desceu depois de muito tempo próximo ao Mackienze, era uma rua de Higienópolis, chegou suado ao número. O prédio ostentava uma arquitetura clássica cor de gesso, com pilares de estilo grego ou romano, portão preto, enorme. Sentiu o olhar do porteiro, percebeu que sua figura destoava do lugar. Molhado, com mochila, suado, a pé... Deu o número do apartamento em que ia, entregou o RG, por solicitação do porteiro, ficou olhando pra própria foto no documento e sentiu muita vontade de ir embora dali. Mas não foi. Liberado pelo porteiro, entrou no hall e viu a decoração luxuosa, um lustre digno de um palácio com vários cristais em formato de gota, brilhando no alto. Entrou no elevador de estilo clássico dourado. Agora não havia volta. De frente pra porta do apartamento, passou alguns segundos até apertar a campainha, apertou. Ouve barulho de chave a porta abriu.

Ele ficou parado na porta não sabe por quanto tempo. Simplesmente encantado pelo sorriso, os braços fortes, peludos, cabelos molhados com algumas mechas caindo na testa. Entrou. E não sabia muito bem o que fazer com as mãos. Como se portar diante de um cara que, naquele momento, era a personificação de tudo o que sonhou? Logo vieram os pensamentos de inferioridade. O que um cara como aquele iria querer com ele? Não tinha aquela beleza inquestionável, como aquela com a qual se deparava! Se sentiu pequeno, sem graça, feio. Porém, pensou, nem tudo se resume à beleza. E o cara já sabia como ele era. Se sugeriu o encontro era porque gostou dele, né? É!

Gosta de vinho? Deve ter balbuciando um sim de alguma forma no meio do turbilhão de emoções na qual estava mergulhado. O outro parecia não só perceber, como também gostar do pavor que com certeza transparecia. Perguntou algo sobre como tinha sido o dia, se foi fácil chegar na chuva… O convidou a sentar no sofá e sentou bem próximo, disse para ele tirar a mochila e ficar à vontade. Perguntou se ele estava nervoso com um sorriso de satisfação. A sensação de alguém acuado parecia excitá-lo. Vem cá. Pegou ele pela mão e foi andando para outro cômodo. Se viu num quarto, o cara deitou e o puxou pra cama passando a mão pelas suas coxas até chegar na bunda, sentia o cheiro de um perfume delicioso refrescante, talvez cítrico. O deitou de bruços, tirou em segundos a própria camiseta e a de sua presa. Foi assim que se sentiu, e isso deu um baita tesão. Ele ofegava como uma fera. Sentiu o cheiro do hálito dele. Corpo a corpo, o belo anfitrião deitado em cima dele, só de shorts, sentiu o membro duro pressionando entre suas nádegas. Estava acontecendo mesmo? Era real? Pensou em como se sentia seguro, protegido embaixo daquele homem. Um tesão o contraste do nosso tom de pele, ele o ouviu dizer entre um gemido safado. Estava muito excitado em saber que seu corpo provocava toda aquela alteração no outro, algo animal. Mais uma vez o hálito fresco, virou o rosto, sua boca, procurando a boca dele e quando disparou um beijo, percebeu a esquiva do outro. Então, é que eu só não curto beijo, beleza? A sensação naquele momento foi de choque, seguida de queda, se sentia caindo, sentiu seu corpo fraquejar, era como cair num buraco escuro. Todo pensamento crítico sobre si mesmo o acometeu naquele instante, estaria com mau bafo? Ele imaginou aquele beijo tantas vezes!

O outro não perdeu tempo, tirou sua calça de uma vez num gesto bruto, sentiu o membro forçar a entrada no seu corpo, estava lambuzado de saliva, foi penetrado de uma vez. Não fosse a sensação de estar caindo, teria sido uma transa muito boa. Sentia o desejo na respiração ofegante e na força com que o pau quente e rígido o penetrava, cada vez mais fundo, cada vez mais forte. Sentiu a língua dele tocar seu pescoço, orelha, chegou a ficar arrepiado. Mais alguns centímetros e aquela língua estaria na sua boca. Mas não. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade sentiu que a velocidade aumentava e ouviu o gemido do gozo, sentiu o pau pulsando dentro dele, sentiu a porra escorrer pela coxa e percebeu que não tinham usado camisinha.

Logo o outro levantou foi para o banheiro tomou um banho, cantarolou uma música enquanto ele ficou na cama, paralisado. O outro voltou se secando com uma toalha. Curtiu? Aham! Se quiser tomar banho, eu vou me vestindo que tenho que passar no shopping ainda. Ducha, vestiu-se, e na sala pegando a mochila pôde reparar na parede cheia de fotografias do cara com uma mulher loira em cenários internacionais. Como não viu aquelas fotos quando entrou? Sua atenção ficou em uma foto do casal se beijando e atrás torre Eiffel. Sua raiva foi da mulher para o cara, mas ricocheteou no seu peito, disfarçou uma lágrima que insistiu em brotar. Percebendo que as fotos chamaram a atenção. Ah eu sou noivo, se alguém do prédio perguntar algo, fala que você veio formatar meu note. E cara, se me vir por aí, finje que não me conhece, beleza? Pra não complicar pra mim.

Saiu, depois de um aperto de mão impessoal. No elevador se sentiu enjoado pela descida. Pôs os fones no ouvido, apertou o play e a música continuou de onde tinha parado "... Desilusão meu bem quando acordou estava sem ninguém xi…" Jurou que nunca falaria desse encontro pra sua amiga.


Rodrigo Maria Dias é cantor, ator, músico, psicólogo, tarólogo e navegante.


Ele faz parte do Grupo LGBTQIA+ de Novos Autores que compõe o projeto É DIA DE ESCREVER.


Segue ele lá no instagram e acompanhe a sua artes. @rodrigomariadias

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