Um Dia Comum Também Merece Ser Escrito?
- Equipe É DIA DE ESCREVER

- há 11 horas
- 5 min de leitura
Encerramos nosso primeiro módulo descobrindo que escrever não precisa começar com uma grande história. Às vezes, basta prestar atenção na vida que já está acontecendo.
Quarta aula e finalmente aconteceu.
Chegou um homem. Bom, um xófen homem de 14 anos.
Sim, senhoras e senhores. Depois de três encontros tentando entender por que diabos a turma do É Dia de Escrever na Casa de Cultura do Butantã havia se transformado espontaneamente em uma espécie de sociedade secreta feminina da literatura, recebemos um novo aluno.
O mistério não foi solucionado, mas pelo menos a estatística mudou.
E Junin, nosso educador, perdeu oficialmente o posto de alecrim dourado masculino da sala.
Foi bonito enquanto durou.
Os macaquinhos, por outro lado, seguem desaparecidos. Já são duas aulas sem aparecer na janela para acompanhar nossos exercícios. Não sabemos se abandonaram o curso, se discordaram da metodologia ou se estão secretamente escrevendo um romance sobre humanos reunidos numa biblioteca.
Aguardamos esclarecimentos.
Um dia da minha vida
Nossa quarta aula encerrou o primeiro módulo da oficina: EU / IDENTIDADE.
Durante agosto, começamos pelo lugar que talvez pareça mais simples (mas está longe de ser): nós mesmos.
Trabalhamos biografia, identidade, memória e, neste último encontro, chegamos ao diário íntimo e ao cotidiano. Esse percurso faz parte justamente da proposta inicial da oficina: destravar a escrita por meio de exercícios que aproximam o participante daquilo que ele já conhece, vive, lembra e observa.
Na 3ª aula, olhamos para trás.
Nesta, mudamos a direção: em vez de recuperar o que aconteceu, tentamos perceber aquilo que está acontecendo.
Porque existe uma coisa meio sacana no cotidiano: enquanto estamos vivendo, quase tudo parece banal. Acordar atrasado. Esperar o ônibus. Ouvir uma conversa. Comer alguma coisa em pé. Receber uma mensagem. Brigar. Rir. Ficar cansado. Olhar pela janela.
Só depois de algum tempo percebemos que aqueles dias aparentemente insignificantes eram, veja só, a nossa vida.
Por isso uma das perguntas da aula foi justamente:
Uma vida comum merece ser escrita?
E talvez a resposta seja outra pergunta: quem decidiu que apenas vidas extraordinárias merecem virar texto?
Observar também é escrever
Uma das ideias que atravessou este primeiro mês inteiro foi simples:
PRESTE ATENÇÃO!
Antes de aprender a construir grandes personagens, narrativas mirabolantes ou frases dignas de serem tatuadas no antebraço de alguém, precisamos aprender a perceber, a anotar uma frase que alguém disse no ônibus. Uma situação absurda no trabalho. Uma lembrança que apareceu enquanto lavávamos louça. Uma coisa que nos irritou. Um cheiro, um medo, uma vontade ou uma cena.
Nem tudo precisa virar conto ou uma postagem. Aliás, nem tudo precisa ser lido por alguém.
Durante a aula, conversamos sobre o diário como uma forma bastante livre de registro. Pode ser uma frase, uma lista, uma observação, um desabafo, um diálogo ouvido, um fragmento ou até um sonho. Primeiro vem a necessidade de registrar, depois é que vamos nos preocupar com acabamento e edição.
E talvez esteja aí uma das coisas mais importantes que queremos construir no É Dia de Escrever: Tirar a publicação de cima da escrita como uma obrigação.
Nem todo texto nasceu para o LinkedIn
Um parênteses aqui, pessoal.
Esses dias, Junin conversava com sua companheira. Ela é uma mulher preta trabalhando em uma empresa bastante tradicional, naquele ambiente corporativo padrão, CLT, cercado majoritariamente por homens brancos.
E assunto para escrever não falta. Experiência também não. Opinião, então...
Existe uma quantidade enorme de coisas que ela gostaria de dizer sobre trabalho, relações profissionais e sobre o mundo que observa dali.
Volta e meia ela diz que: “Eu deveria escrever isso no LinkedIn.”
Mas não escreve. Porque imediatamente aparece outra pergunta: “Mas e se alguém ler? Posso perder o emprego até”
Olha que negócio curioso. A gente nem começou a escrever e já está preocupado com o leitor.
Daqui a pouco existe uma reunião inteira dentro da nossa cabeça discutindo um texto que nem existe ainda.
E se ela escrevesse mesmo assim e não postar?
Escrever só por escrever mesmo. Não para fazer literatura nem para construir autoridade profissional, conseguir engajamento, vender curso ou virar Top Voice de absolutamente coisa nenhuma.
Só para ela.
Porque escrever também serve para organizar aquilo que ainda está bagunçado dentro da gente. Pode ajudar a perceber o que pensamos sobre alguma coisa.
Dar nome a uma sensação, guardar uma memória, entender uma raiva, registrar uma injustiça ou simplesmente retirar um pensamento da cabeça e colocá-lo em algum lugar.
A própria aula trouxe uma pesquisa que discute o diário íntimo justamente em relação à subjetividade, à simbolização e à formação da identidade. A provocação apresentada à turma foi: talvez escrever sobre um dia não sirva apenas para registrar o que aconteceu, mas para perceber aquilo que ainda não havíamos conseguido organizar em nossas cabeças.
Depois você decide se publica.
Primeiro escreva.
Quando um diário guarda muito mais que um dia
E tivemos um daqueles momentos em que a própria turma responde à aula melhor do que qualquer slide conseguiria.
Uma das participantes do nosso curso e Clube de Escrita, compartilhou um texto forte sobre dificuldades que enfrenta na vida e dentro de casa.
Ela escolheu o diário para colocar essa experiência no papel.
E não precisamos transformar sua experiência ou sua condição em assunto para explicar aqui.
O que interessa para nossa conversa sobre escrita é outra coisa: o que aconteceu quando aquilo virou palavra?
Organizar uma experiência em texto exige escolher o que contar, perceber sentimentos, estabelecer relações entre acontecimentos e transformar uma coisa que estava acontecendo dentro de nós em linguagem.
Escrever não substitui terapia nem precisa carregar essa responsabilidade. Mas a escrita pode ter uma dimensão terapêutica: pode ser ferramenta de elaboração, reflexão e organização do pensamento.
E ninguém precisa publicar uma linha disso.
Se publicar, ótimo. Se guardar numa gaveta, ótimo também. Se escrever e nunca mais ler, talvez aquele texto já tenha cumprido sua função.
Carolina já sabia disso
Por isso trouxemos para a aula Carolina Maria de Jesus e Quarto de despejo.
Nos cadernos de Carolina aparecem fome, dinheiro, maternidade, vizinhança, política, trabalho, cidade e desejo de escrever porque essas coisas faziam parte dos dias dela. Quando registrava sua própria rotina, Carolina acabava registrando também o mundo em que vivia.
E essa talvez seja uma das grandes descobertas que queremos carregar para o próximo módulo: quando escrevemos sobre nós, quase nunca estamos escrevendo apenas sobre nós.
Nos nossos dias entram trabalho, dinheiro, família, cidade, transporte, afetos, preconceitos, cultura, violência, amizade, desejo, medo, política.
A sociedade entra no texto porque ela já estava dentro da nossa rotina. E isso prepara lindamente o terreno para o que vem agora.
Adeus, EU. Olá, MUNDO.
Fechamos agosto.
Quatro encontros e um primeiro módulo inteiro dedicado a diminuir a distância entre: “Eu tenho vontade de escrever.” e “Eu escrevi.”
Não estamos procurando, neste momento, o texto perfeito.
Estamos tentando construir algo anterior a ele: a liberdade de produzir um texto ruim, estranho, incompleto, íntimo, torto ou maravilhoso sem interrompê-lo a cada três palavras para julgá-lo.
Porque revisão existe. Edição existe. Reescrita existe. Aliás, teremos um módulo inteiro para isso mais adiante.
Mas agora, queremos só escrever e escrever de novo, observar, anotar e descobrir aos poucos nossa própria voz.
Na próxima quarta-feira, começa o Módulo 02: EU E O MUNDO.
Vamos sair um pouco de dentro da cabeça e olhar para fora.
Casa.
Bairro.
Cidade.
Família.
Trabalho.
Relações.
Pequenos conflitos.
Coisas aparentemente banais que, quando alguém presta atenção suficiente, deixam de ser banais.
E começaremos a entrar no universo da crônica, usando justamente observação, cotidiano e expansão do olhar como matéria-prima para nossos próximos textos.
Porque parte de escrever é isso: prestar atenção na vida antes que ela passe.
E, caso alguém encontre os macaquinhos da Casa de Cultura do Butantã, por favor avise.
Eles já estão com duas faltas.






Comentários