Cidadão de Bem é Uma Profissão de Risco
- Bob Wilson

- há 1 dia
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Meus amigos e amigas, eu confesso.
Eu tenho um problema com carne.
Não como.
Mas como no Burger King e vou à churrascarias. Hipócrita!
Assim que me sinto quando isso acontece. Ou quando mordo um Hot-Dog sem salsicha que pedi, mas acaba vindo a danada e quando mordo, acho uma delícia e engulo com prazer, devolvendo o resto do lanche (muito triste, aliás).
Enfim... tenham calma.
Antes que algum vegano ou vegetariano se materialize na minha sala com uma intimação judicial, eu explico.
Vou à churrascaria porque algumas têm opções vegetarianas. Vou ao Burger King porque existe hambúrguer vegetariano. E às vezes, na correria, é o que tem por perto. Tecnicamente, portanto, posso sair de lá dizendo:
— Viu? Nenhum animal morreu para eu me alimentar.
O problema é aquele detalhe desagradável chamado realidade.
Meu dinheiro entrou numa empresa cuja atividade continua dependendo, em grande medida, de vender carne.
Não matei a vaca. Só ajudei no aluguel do açougue.
Hipócrita!
Sou. Me sinto assim.
Experimentem reconhecer a própria contradição, é libertador.
Talvez seja justamente por isso que eu esteja cada vez mais fascinado pelo chamado cidadão de bem.
Porque ele aperfeiçoou uma tecnologia moral extraordinária:
A hipocrisia sem culpa.
A família está salva. Escondam as mulheres.
A direita brasileira gosta de algumas palavras.
Família.
Ordem.
Mérito.
Liberdade.
Responsabilidade.
Deus.
Propriedade.
E, mulher.
Mulher entrou forte no catálogo porque descobriu-se uma coisa surpreendente: elas votam (mesmo que alguns deles não queriam).
Então nossos candidatos estão preocupadíssimos com elas.
Romeu Zema foi ao Jornal Nacional explicar suas políticas de combate à violência contra a mulher e, num daqueles momentos em que Freud pede um uísque e liga a televisão, anunciou:
“Eu tenho uma série de programas contra as mulheres.”
QUE LEGAL!
É a voz interior gritando. Ele não aguentava mais mentir ou disfarçar para cumprir aquele ritual.
Seria apenas uma frase engraçada não fosse o contexto: Renata Vasconcellos estava justamente perguntando sobre o crescimento dos feminicídios em Minas durante anos de sua administração. Zema respondeu dizendo que sua gestão havia reduzido o problema e tratou aumentos como eventuais “repiques”.
É quase poesia política.
O candidato diz que possui programas “contra as mulheres” justamente enquanto tenta explicar por que mulheres continuam sendo assassinadas.
O subconsciente não vota mas nos deu uma bela entrevista.
Ainda bem que temos os defensores da civilização
Bom, agora tem esse sujeito, o tal do Renan Santos. Chamo ele carinhosamente de, Cachorro.
Renan quer ordem, quer segurança e quer acabar com as favelas.
Aí me vem alguns jornalistas e dizem que "precisamos ser justos: sua proposta formal não é passar uma borracha gigantesca nas favelas. Ele fala em “desfavelização”, transformando favelas em bairros por meio de urbanização, regularização, infraestrutura e participação privada. Calcula algo em torno de R$ 1 trilhão em dez anos".
O interessante é o vocabulário. Para Renan, “não há definitivamente nada de bom na favela”, e acabar com a instituição favela seria transformar o Brasil num país “civilizado”.
Cachorro né... Civilização. Guardem essa palavra.
Porque o mesmo Renan prometeu no debate da Band um “banho de sangue” contra facções criminosas e bandidos. Quer dar autonomia para a polícia (como se ela precisasse) para ser juiz e executora. Ali, na calçada da sua padaria. Na Globo, defendeu uma guerra contra o crime e afirmou que, em determinadas circunstâncias, “a polícia tem que atirar para matar”.
Na cabeça deste serzinho medíocre, Civilização é isso. Às vezes tem banho de sangue. Mas isso depende muito do CEP.
E para conseguir esse 1 trilhão (número que ele tirou de dentro do cool), o bichão vai fazer o que chama de "reformas impopulares", que só ele tem coragem de fazer (segundo ele).
Aí, fui olhar o plano de governo do cachorro. O bichão tá por aí falando em cortar privilégios, diminuir super salários, mas quando você lê o plano dele ele vende seu ajuste fiscal destacando o combate aos supersalários e aos privilégios dos mais ricos, mas a maior parte das economias que sua própria equipe conseguiu quantificar vem de outro lugar. Dos R$ 212 bilhões anuais detalhados, R$ 91 bilhões viriam da desvinculação de aposentadorias e BPC do salário mínimo, R$ 61 bilhões da retirada dos pisos de saúde e educação e R$ 22 bilhões da revisão do abono salarial. Somadas, essas três medidas representam cerca de 82% da economia apresentada. O corte de privilégios existe da boca pra fora, então. Quando chega a conta grande, é do cool do trabalhador que vai sair.
Ai... ai... mas todo cachorro sempre faz muita cachorrada.
Nosso defensor contemporâneo das mulheres também possui um clássico no catálogo.
Em vídeo gravado em 2018 e que posteriormente veio a público, Renan aparece numa roda fazendo uma “piada” segundo a qual uma colega seria estuprada caso o grupo não conseguisse entrar num bar. Ele posteriormente classificou aquilo como uma piada de mau gosto feita por pessoas bêbadas.
Olha aqui meus amigos e amigas... para mim, usou bebida para justificar canalhice, tem que tomar surra de mão aberta na oreia. E assim como o querido Zema, não adianta o cachorro falar que tá com as mulheres: Seu plano de governo, suas falas, suas piadas, até a roupa que usa, o jeito que anda, as amizades que tem, tudo denuncia um cachorro que assim que conseguir o poder, é capaz até de tirar o voto das colegas.
E só para lembrar, no partido dele o que tem de homi falando contra mulheres, não cabe numa urna eletrônica.
O problema começa quando você constrói uma carreira política vendendo superioridade moral, enquanto pede ao público que trate seus próprios episódios como juventude, álcool, piada, contexto, erro, como um passado.
Para o outro: LEI! ORDEM! CADEIA! BANHO DE SANGUE!
Para nós: foi mal, rapaziada tava doidão.
E temos o especialista em pacificação
Gostei muito da entrevista do Ronaldo Caiado na GLOBO. Ele quer paz, gente.
E eu gosto de paz. Acho que a maioria gosta. Sei que nem todos. Mas a maioria sim.
O problema é que a paz proposta por parte da direita brasileira possui uma característica fascinante: quem tentou quebrar a democracia precisa ser perdoado para que a democracia volte a funcionar.
Ai como dói meu cérebro quando vejo gente defender isso.
Caiado prometeu enviar ao Congresso uma anistia ampla aos envolvidos no 8 de Janeiro, inclusive Bolsonaro, justificando-a como instrumento para “pacificar” o país. E, se parar pra ver, foi a única pergunta que respondeu de fato na sabatina do Jornal Nacional. O resto, só dei risada dele correndo das perguntas, sem ter proposta, números, nem cara de pau para mentir ele tinha. Sentou na mesa pra que?
Durante a entrevista, invocou precedentes históricos de anistia. Graças as deusas, Renata Vasconcellos estava lá e como uma Tramontina o cortou e então lembrou um pequeno inconveniente histórico: parte dos anistiados por Juscelino Kubitschek em 1956 participou, oito anos depois, do golpe de 1964.
E aqui encontramos outra maravilha semântica. Tentar ruptura institucional é polarização. Punir tentativa de ruptura institucional é revanche. Perdoar quem tentou ruptura institucional é pacificação.
Entendeu?
Eu também não.
Caiado ainda meteu vááárias vezes o famoso, "E O LULA?". Quis comparar a anistia que propõe à situação de Lula no STF.
Só existe aquele detalhezinho burocrático: Lula não foi anistiado.
E caros e caras colegas, deixar claro aqui de novo (todo texto tenho que dizer isso), não sou petista, Não sou Lulista. Para o pesadelo geral da nação quero mesmo é que o socialismo vença.
Dito isso, se você não consegue entender que as condenações do Lula foram anuladas porque o Supremo entendeu que a vara de Curitiba não tinha competência para julgar aqueles processos e posteriormente, o STF também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no caso do tríplex, você não tem nem que abrir a boca pra opinar.
Mentira, pode opinar sim. Mas vai só bostejar.
Concordando ou não, o homi é juridicamente inocente. O povo do 8 de janeiro, não. E mesmo que venha a anistia, isso também não é inocência. Perdoar não é inocentar.
Mas isso são só detalhes.
O que interessa é que o plano do Caiado é anistia pra todos e paz no Brasil. O resto, segundo ele, era muito complicado explicar nos 30 minutos de entrevista e no seu plano de governo.
Talvez o problema seja o espelho
Enfim, a preguiça me surra nessa cadeira e vou terminar essa crônica assim na pressa.
Mas antes que alguém termine esta crônica pensando:“A lá! Bob Wilson acha que esquerdista é moralmente superior!”
Não.
Eu comecei este texto confessando que sou o vegetariano que financia churrascaria ( e isso, parece bobo, mas é um crime federal na nossa comunidade).
A esquerda também é hipócrita. Na economia, na segurança e em diversas pautas. Principalmente quando tem a oportunidade de fazer o que deveria (como uma esquerda), e opta por manter a situação.
Eu sou hipócrita. Você provavelmente é.
O ser humano consegue defender sustentabilidade enquanto troca de celular todo ano, justiça social enquanto explora funcionário, feminismo enquanto reproduz machismo, direitos trabalhistas enquanto contrata alguém sem direito nenhum e vegetarianismo enquanto compra batata frita pra chuchar no sorvete da corporação que vende alguns bilhões de hambúrgueres.
A diferença não está em possuir contradições.
A diferença está no que fazemos quando elas aparecem. Eu posso olhar para meu hambúrguer do Burguer King e admitir:
— Bob, meu querido, você continua dando dinheiro para uma empresa sustentada majoritariamente pela venda de animais.
E isso deveria me incomodar. E me incomoda na verdade. Preciso parar com essa hipocrisia o quanto antes. O que não posso fazer é morder meu Whopper Vegetal, levantar o dedo engordurado e anunciar:
EU SOU MORALMENTE SUPERIOR A TODOS OS CARNÍVOROS DESTA NAÇÃO.
É aí que mora o problema do cidadão de bem.
Não é errar, nem contradizer-se ou ter um passado. O problema é transformar a própria moral em arma para controlar os outros e indulgência para absolver a si mesmo.
Defende a família enquanto trata mulher como objeto e filho como lixo.
Defende mulheres enquanto estupro vira piada.
Defende a democracia enquanto anistia golpista.
Defende civilização prometendo banho de sangue.
Defende educação enquanto Hitl&r aparece como referência de liderança e enquanto corta o piso salarial.
Defende segurança enquanto mulheres e crianças ainda batem à porta do Estado procurando proteção.
E quando alguma dessas contradições explode vem com papinho de que foi brincadeira, que falta contexto, que foi uma gafe (não foi, Zema). Foi uma fala infeliz (não foi Renan).
Cada vez mais, para mim, “cidadão de bem” é apenas alguém que aprendeu a apontar tão furiosamente para o pecado dos outros que ninguém percebe o churrasco acontecendo no próprio quintal.
Existe um fenômeno estudado pela psicologia chamado "raciocínio politicamente motivado".
Lê com calma: Quando uma informação ameaça não apenas nossa opinião, mas nossa identidade e o grupo ao qual pertencemos, nosso cérebro pode deixar de trabalhar como juiz e começar a trabalhar como advogado: em vez de perguntar “isso é verdade?”, começa a procurar argumentos para explicar por que aquilo que ameaça nossa turma deve estar errado. E a má notícia, caros leitores e leitoras, para quem estava preparando a piada sobre o tio bolsonarista do celular, é que isso não é exclusividade da direita: todos fazem.
Feito o meu papel de advogado de todos e todas, digo que, porém, existem estudos que CURIOSAMENTE, encontraram conservadores mais resistentes à dissonância política e outros nos quais tiveram maior dificuldade para distinguir informações políticas verdadeiras de falsas.
Ou seja: ninguém está imunizado contra a bolha ou em ser hipócrita, mas algumas bolhas podem estar recebendo uma quantidade muito maior de fumaça.
Atentem-se povos e povas!
Bob Wilson





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