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O Que Eu Lembro de Mim?


Terceiro encontro do curso É Dia de Escrever, na Casa de Cultura do Butantã. Dessa vez, mexemos numa gaveta meio perigosa: a memória.


Pra começar, anunciamos que temos uma nova participante e...


...bom, é outra mulher.


Isso mesmo.


Depois de três encontros, o mistério continua: onde estão os homens deste curso?


No encontro passado já tínhamos levantado algumas hipóteses. Homens escrevem menos? Investem menos em si mesmos? A divulgação chegou mais às mulheres? Elas têm mais disposição para acordar numa quarta-feira e discutir literatura enquanto os homens estão fazendo sei lá o quê?


Não temos dados científicos.


Temos apenas uma evidência cada vez mais robusta: até agora, nossa mesa continua 100% feminina.


Mas enquanto não solucionamos esse grande mistério sociológico do Butantã, seguimos escrevendo.


E desta vez fomos investigar outro tipo de mistério:


O que eu lembro de mim?


Nossa terceira aula continuou o primeiro módulo do curso, dedicado ao EU e à identidade, mas dessa vez entramos em um território um pouquinho mais delicado: nossas memórias.


Começamos com algumas frases bem simples:


Eu me lembro de...

Eu quase não lembro de...

Uma coisa que nunca esqueci...

Dizem que aconteceu, mas eu não lembro...

Uma lembrança que não sei se aconteceu assim...


Cinco minutos. Sem apagar. Sem corrigir. Sem ficar voltando três parágrafos porque decidiu que aquela vírgula estava destruindo sua futura carreira literária.


A proposta parece pequena, mas ela carrega uma parte importante da metodologia do É Dia de Escrever: antes de aprender a melhorar um texto, precisamos conseguir escrevê-lo.


E existe uma pessoa particularmente eficiente em impedir isso. Nós mesmos.


Cala a boca um pouquinho, autocensura

Tem gente que escreve uma frase e imediatamente pensa: "Isso está ruim."


Escreve outra: "Nossa, isso está pior."


Na terceira já começa: "Quem foi que colocou na minha cabeça que eu sabia escrever?"


Calma, criatura. Você escreveu três frases.


Um dos trabalhos deste começo de curso é justamente tentar diminuir essa autocensura que aparece antes mesmo de existir alguma coisa para ser julgada.


Por isso insistimos tanto em exercícios rápidos, anotações durante a semana, textos feitos em aula e momentos em que a regra é simplesmente: escreva.


Não corrija. Não apague. Não tente impressionar ninguém. Escreva.


Porque revisão existe. Técnica existe. Reescrita existe. E vamos chegar a tudo isso. Mas são etapas diferentes. Primeiro precisamos encontrar alguma coisa. Depois experimentar. Ler. Compartilhar. Investigar. E, aí sim, reescrever.


Nossa metodologia vai fazendo justamente esse movimento: as ferramentas retornam ao longo do curso, mas cumprem funções diferentes. No primeiro encontro, os detalhes ajudaram a começar; no segundo, ajudaram a investigar identidade; agora, serviram para acessar memória. Mais para frente, esses mesmos recursos vão aparecer novamente quando chegarmos a cenas, personagens, ambientes e ficção.


Não andamos em linha reta. Estamos fazendo uma espiral.


Só que lembrar nem sempre é gostoso

Trabalhar com memória tem outra complicação. Nem tudo aquilo que guardamos é bonito. Às vezes uma lembrança traz saudade. Às vezes traz uma pessoa que não está mais aqui. Pode trazer uma infância divertida, mas também uma infância difícil. Pode aparecer uma casa, um cheiro, uma música, uma ausência, uma violência, uma alegria absurda ou alguma coisa que nem sabemos exatamente por que permaneceu conosco.


E escrever sobre isso pode ser complicado. Já percebemos isso logo no primeiro encontro, quando uma das participantes se emocionou escrevendo para si mesma aos oito anos.


Por isso, trabalhar memória não significa obrigar ninguém a abrir todas as gavetas.


Quem escreve também escolhe o que deseja contar e até onde deseja ir.


Mas existe ainda outro problema fascinante: Nossa memória é uma baita mentirosa. Ou talvez "mentirosa" seja injusto. Digamos que ela seja... criativamente pouco confiável.


Eu lembro. Quer dizer... acho que lembro.

Uma das ideias que atravessou nosso encontro foi justamente esta:


Memória não é uma câmera.

Quando lembramos, não damos play numa gravação arquivada dentro da cabeça. A memória seleciona, esquece, associa, reorganiza e reconstrói.


Às vezes lembramos perfeitamente de um cheiro, mas não da roupa que estávamos usando. Da música, mas não da data. De uma frase, mas não sabemos mais quem disse. De uma sensação no corpo, embora todo o resto da cena tenha desaparecido.


E às vezes existe uma dúvida ainda maior: Eu realmente lembro disso ou lembro porque alguém me contou tantas vezes que transformei aquela história numa lembrança minha?


É aí que a literatura encontra um território maravilhoso. Porque uma memória não precisa estar completa para produzir um texto.


Podemos escrever: "Não lembro...", "Na minha memória...", "Talvez fosse...", "Minha mãe diz que..." , "Não sei se aconteceu exatamente assim...".


Não precisamos transformar dúvida em certeza para escrever. Podemos fazer justamente o contrário: transformar a dúvida em literatura.


O corpo também lembra

Para escavar essas memórias, voltamos a ferramentas que já apareceram em encontros anteriores.


  • Imagem.

  • Som.

  • Cheiro.

  • Gosto.

  • Toque.

  • Corpo.

  • Objetos, lugares e sensações podem funcionar como pequenas chaves.

  • Uma panela.

  • Uma fotografia.

  • Um perfume.

  • Uma camiseta.

  • Uma música.

  • Uma rua.

  • Uma cicatriz.

  • Um brinquedo.


Às vezes você passa anos sem pensar em determinada pessoa e basta sentir um perfume parecido no metrô para, "pá!", estar novamente numa casa onde não entra há vinte anos.


Foi a partir dessas pequenas chaves que chegamos ao principal exercício da manhã:


Minha primeira lembrança.

Não era para contar a infância inteira. Era para escolher uma cena e permanecer nela. Tentar descobrir quem estava ali, o que víamos, o que ouvíamos, se havia algum cheiro, alguma frase, alguma sensação.


E perceber uma coisa ainda mais curiosa: existem duas pessoas dentro de uma memória.


Existe o eu de lá, que viveu aquela experiência sem saber o que aconteceria depois.


E existe o eu de agora, que olha para trás sabendo tudo aquilo que aquela criança ainda não sabia.


Qual dos dois conta a história?


Bom... Aí temos material para escrever por um bom tempo.



E então apareceu uma bailarina chamada Stela

No final do encontro, aconteceu uma daquelas coisas que explicam melhor nossa proposta do que muito slide.


Uma das participantes, Anete, escreveu sobre uma memória de infância. Ela se lembrou de ter ido assistir a um espetáculo de dança. A lembrança não estava inteira. E tudo bem. Porque passamos justamente a manhã inteira falando sobre como nossas memórias possuem buracos, misturam sensações e deixam espaços que nem sempre conseguimos preencher.


Só que Anete decidiu fazer uma coisa muito bonita com um desses espaços.


Temos na turma a Stela. E Stela chegou à escrita por um caminho diferente: a dança.


Ela traz para a mesa uma experiência construída primeiro pelo corpo, pelo movimento, pelo palco. E talvez isso também diga bastante sobre o que estamos tentando construir neste curso.


Ninguém precisa chegar à escrita vindo da literatura.


Cada pessoa parte de algum lugar para chegar à palavra.


Anete pegou justamente essa informação sobre Stela e levou para dentro da própria memória. Ao final do texto, descobrimos o nome daquela bailarina que Anete havia visto na infância:


Stela.


Não. Não era a nossa Stela.


Era literatura fazendo das suas. Anete pegou uma lembrança verdadeira, encontrou nela uma lacuna e decidiu brincar justamente naquele espaço para homenagear uma colega que conheceu décadas depois daquela cena acontecer. E talvez tenha sido um final perfeito para uma aula inteira dedicada à memória. Porque a lembrança trouxe a matéria-prima.


O presente trouxe Stela.


E a escrita colocou as duas coisas para dançar juntas.



Escrever também é lembrar e escolher

Estamos apenas no terceiro encontro.


Ainda temos muitos meses pela frente e vamos chegar a personagens, narradores, gêneros, ficção, textos mais longos, revisão, publicação e tantas outras coisas.


Mas começamos pelo EU de propósito.


Antes de inventarmos outros mundos, estamos olhando para aquele enorme arquivo bagunçado que cada pessoa carrega consigo.


Quem sou?

De onde escrevo?

O que observo?

O que lembro?

O que esqueci?

O que talvez tenha acontecido?

E o que consigo fazer literariamente com tudo isso?


Talvez escrever seja também isso: pegar aquilo que ficou, aquilo que desapareceu, aquilo que alguém nos contou, aquilo que juramos lembrar e até aquilo que talvez nunca tenha acontecido exatamente daquele jeito... e descobrir o que queremos contar agora.


Porque memória não é câmera. Ainda bem.


Se fosse, talvez tivéssemos apenas gravações. Assim, temos histórias.



Nos vemos na próxima quarta-feira. E, até lá, continuamos prestando atenção, anotando, lembrando, esquecendo e escrevendo.


Porque todo dia continua sendo É DIA DE ESCREVER!



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