• Suely Mastroroso

Autobiografia, por Suely Mastroroso

É tão difícil...

É mais difícil falar de si do que do outro.

Será porque é mais fácil olhar os ciscos dos olhos dos vizinhos do que a trave

dos nossos?

Será que é porque estamos sempre prontos a julgar?

Será porque, na nossa escura e funda caverna, está o inadmissível e

persistente vilão juiz, apontando o dedo implacável?

Será que é mais interessante ser assim? Mal?

Penso que a tendência de falar do outro é falar mal. Falar mal é mais

“divertido”.

Sem generalizar, mas nós somos os que viramos a cara para os nossos

defeitos e só olhamos nossos atos heróicos. Somos sim os melhores e não

gostamos de ver que o outro é capaz do melhor. O outro É melhor.

Tocar a ferida do outro não nos dói. Somos egoístas... e limpar a casa do outro

dá menos trabalho. Gostamos de empurrar nossa própria sujeira para debaixo

do nosso belo tapete persa.

Bem, não vejamos tais divagações como amargas. Nem todos são assim.

Talvez 90% (sarcasmo modo on ligado)?


Falemos de Luz.

Vejam... Luz que descobriu que não era filha de quem era, mas desconfiava. E

que quando descobriu se viu condenada a não querer ou poder saber da sua

história.

Luz sem raízes, que não sabe bem de onde veio.

Luz que não podia brincar porque quem a educou – por medo – não lhe deu o

direito de se misturar com seres da mesma espécie: crianças.

Luz que foi obrigada a ser grata a quem a acolheu e a quem não foi dado

espaço para questionar sua história e origens. De perguntar “por que? ”. A

quem foi mostrado que ser grata por ter sido salva do Juizado de Menores ou

da rua era obrigatório. Inadmissível ser ingrata. Gratidão imposta vale?


Luz que se revoltou por ter perdido a mãe muito jovem. Mãe, sua base, seu

escudo, seu chão. Que lhe defendia, que a tudo resolvia, que a preservava

numa redoma. Que, entretanto, ao mesmo tempo a isolou das pessoas, não a

deixou aprender e experienciar relações sociais. Cresceu só e só, atirada ao

mundo, teve que aprendê-lo do jeito que deu.

Carregando o fardo de uma depressão e da doença de um pai a quem todos da

família exigiam gratidão por tê-la “pego para criar” e que quase se tornou seu

assassino. Essa mesma depressão (que não sabia que era e o que era) pautou

sua vida quase inteira. Descobriu faz pouco com a ajuda dos Espíritos (deste e

de outro plano) a entender o porquê da revolta, da amargura do coração

sangrando.

Luz que ainda tem dificuldade de olhar em seus próprios olhos no espelho. E

que luta para colocar uma lente menos cinza para enxergar o mundo.

O ser triste crônico é como um vício, uma dependência química. Mata-se um leão por dia. Só por hoje.

Luz que não gosta de descobrir esses monstros escondidos em suas cavernas. Prefere se esconder deles. Para essa Luz não são bonitos de ser ver.

Aliás, como só viu cinza, essa Luz sonhava com o sol, o mar, o azul, o

vermelho, o arco íris.

Viver na dor não é prato favorito de ninguém. Nem de Luz. Por isso Luz buscou mecanismos para a dor não doer. A música, as letras e os muitos amores. Esses últimos trouxeram feridas ao coração, mas também frutos lindos, filhos.

As letras, para conter o sangramento do coração. Para falar das coisas do

amor. A música foi a língua que Luz melhor aprendeu para falar da dor, da vida, do

sangue, do amor.

Luz, pela misericórdia do Universo encontrou outras Luzes. E uma dessas lhe disse:


“não se julgue, pois eu tampouco estou nesse papel. Você é uma sobrevivente de guerra”.

Sobrevivente de mim.

É mais fácil falar quando é do outro.

Luz.... Esse foi o nome que meu príncipe que virou sapo me deu...

Significado do meu nome.... Tanto cinza... Paradoxo...

Essa sou eu.



Suely Mastroroso é participante do Grupo de Mulheres do projeto É DIA DE ESCREVER.


Nos traz essa autobiografia potente e você pode conversar e conhecê-la um pouco mais em seu instagram @mastroroso.

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