• Claudia Walleska

Autobiografia, por Claudia Walleska

Updated: Apr 28, 2021

Nasci em São Paulo em 1980, um ano depois da criação do Movimento Negro Unificado (MNU), que foi um marco histórico na luta antirracista no Brasil. O mês que os meus ancestrais escolheram para minha chegada foi novembro, mês que hoje comemoramos o mês da consciência negra em referencia à Zumbi do Palmares, construindo nossas histórias e nossos dias de celebração e tentando apagar um texto há muito tempo feito por só uma só raça, a colonizadora.


Nasci cheia de ancestralidade e amor periférico. Lembro-me que minha mãe, afetuosamente, me contava de onde veio meu nome: Claudia veio devido meu irmão mais velho ser Claudio (em homenagem ao tio). Walleska vem de uma história única.


Minha mãe amava ler, de bíblia à revistinha, de jornal a panfleto. E em um dos livros que ela leu tinha um personagem chamado “Wallace Walleska”; ela amou a história e a conduta do personagem, sempre me contava da história com brilho nos olhos que tinha como determinação para o próximo filho ter o nome Wallace Walleska, mas, como nasceu uma menina ficou Claudia Walleska. Amava meu nome, sentia falta de uma referencia africana, mas amava a construção que meu nome foi feito.


Em 1987, junto com a 1ª candidatura do Lula à presidência sem sucesso, minha mãe veio a falecer. Lembro-me que toda família de 8 tios e tias se reuniram para perguntar pra nós (3 filhos de Maria) com quem queríamos ficar. Hoje percebo como meus familiares estavam além do seu tempo na questão do cuidado e do afeto.


Eu e meu irmão mais velho escolhemos ficar com tia Cida e meu irmão mais novo (de 5 anos) quis ficar com o tio Claudio. Nisso, tia Cida mudou de endereço, da região central de São Paulo foi para zona leste, só para os três irmãos ficarem morando separados, porém no mesmo bairro. E assim fui criada na zona mais leste de São Paulo, aonde o sol todo dia me dava bom dia, seja pelas conversas em roda quando criança, jogando “taco”, “queimada” ou fazendo fogueira para assar a batata doce, seja voltando das grandes baladas blacks, já na adolescência com amigas e primas queridas, pulando a janela de noite escondida pra ir e voltando rezando para não ter sido descoberta durante a madrugada. Sabia que era errado sair escondido, mas não dava pra evitar a alegria da noite que me convidava a ver gente preta e bonita se divertindo na Chic Show, Zimbabue, Projeto Radial, Mood, Black Med, Rose Bom Bom e tantas e tantas outras baladas incríveis. Era minha válvula de escape aos fins de semana.


Sempre estudei em escola pública de periferia e, no segundo grau, passei em dois vestibulinhos de cursos técnicos diferentes, em escolas técnicas diferentes e concluí as duas, secretariado e técnica em enfermagem. Entre poemas, jogos de basquete amador e rimas de RAP, sonhava com a faculdade.

Sonho que ficou mais palpável quando comecei a fazer cursinho pré-vestibular para negros e pobres carentes chamado Thema Educação, que me proporcionou uma bolsa de estudos parcial em uma universidade de elite. Já inserida na faculdade o esporte completou minha bolsa de estudos pois passei em uma seletiva de atletas e joguei basquete universitário. Duas bolsas que me proporcionaram tornar o sonho em realidade factível. Tornei-me bacharel em enfermagem no ano de 2006. Gostei de brincar de estudar e fiz mais 4 especializações, sendo 3 em instituições públicas do ensino superior.


No decorrer da minha vida fiz inúmeros concursos públicos, passei em alguns e fui convocada e assumi em 5 cargos desses concursos. Entrei como enfermeira e tive a alegria de ser enfermeira chefe no Hospital das Clinicas de Universidade de São Paulo no setor da UTI da Ortopedia, a honra de ser Coordenadora do Núcleo de Vigilância de Riscos e Agravos à Saúde Relacionados ao Meio Ambiente da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) e o orgulho de trabalhar com políticas públicas para a saúde no Grupo de Planejamento e Avaliação da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Hoje trabalho em dois vínculos públicos (um do município e um do estado), ambos como enfermeira do setor de epidemiologia da vigilância em saúde do meu bairro, onde nasci, Itaquera. Atualmente também sou tutura de um curso de imunização pelo Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS).


Mas o que mais me alegra ainda são rimas, prosas, musica e basquetebol. Tive a alegria de 14 anos atrás conhecer um parceiro que ama basquete, musica e leitura como eu. Fizemos morada e casamos em um dia 20 de novembro, celebrando nossa negritude no dia da consciência negra. Temos dois filhos Bruno Malik e Caique Bruk o qual cada um tem sua Enfermeira, seu Bibliotecário, sua cantiga, sua musica e um poema pra chamar de seu. Amo o que somos e o que construímos em todo esse tempo juntos. Há um provérbio africano que diz que amar não é olhar um pro outro, mas na mesma direção... e nós somos assim.


A escrita me acompanha desde a adolescência não tenho livro solo mas já tive a alegria de participar de 12 coletâneas publicadas com contos e poemas, além de registrar musicas em parcerias maravilhosas. O que é a vida senão um poema musicado né? Seguimos...




Claudia Walleska é escritora, compositora e enfermeira.


Ela faz parte do Grupo de Negritudes do projeto É DIA DE ESCREVER.


Conheça mais a Claudia em seu instagram @claudia_walleska

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