Quem Sou Eu Quando Escrevo?
- Equipe É DIA DE ESCREVER

- há 20 horas
- 4 min de leitura
Segundo encontro do Curso "É Dia De Escrever", na Casa de Cultura do Butantã.
Duas novas participantes e seis saguis presentes (ou pelo menos achamos que eram saguis, vai saber rs).
Na manhã desta última quarta-feira (12/08/2026), voltamos à Casa de Cultura do Butantã para o segundo encontro presencial do É Dia de Escrever. E se na semana passada começamos tentando responder quem somos através de um texto autobiográfico, desta vez resolvemos complicar um pouquinho mais a pergunta:
Quem sou eu quando escrevo?
Antes disso, porém, duas novas participantes chegaram para ocupar as cadeiras da nossa mesa.
Aliás...
...AS participantes.
Porque percebemos uma curiosidade: até agora, só temos mulheres no curso.
Por quê?
Não sabemos.
Homens não escrevem? São mais preguiçosos para sair de casa? A divulgação chegou mais às mulheres? Elas procuram mais atividades como essa? Foi puro acaso?
Fica a pergunta para uma investigação futura.
Por enquanto, seguimos com uma mesa cheia de mulheres escrevendo e um mediador tentando descobrir o que isso diz sobre o mundo.
Quem é você sem preencher um formulário?
Começamos retomando os textos autobiográficos produzidos no primeiro encontro e o desafio que ficou para a semana: fazer uma pequena anotação por dia (acesse aqui o desafio e tenta você também).
A proposta é simples porque uma das ideias centrais do curso também é simples:
Escrever também é observar e prestar atenção.
Não estamos, pelo menos neste momento, preocupados em produzir o "texto perfeito". Estamos tentando construir rotina, observar melhor o cotidiano e juntar matéria-prima.
Uma frase ouvida no ônibus.
Uma lembrança que apareceu enquanto lavava a louça.
Uma fotografia antiga.
Uma conversa.
Um cheiro.
Ou seis possíveis saguis atravessando a aula.
Tudo pode acabar virando texto.
Depois fomos para uma pergunta aparentemente muito fácil:
Quem é você?
Mas tinha uma regra. Não podia responder usando nome, idade, profissão, endereço ou estado civil.
E aí a coisa ficou mais complicada. Se tirarmos todas aquelas informações que normalmente usamos para nos apresentar, o que sobra?
Sobram memórias, relações, escolhas, perdas, desejos, contradições, lugares, pessoas e tudo aquilo que fomos acumulando pelo caminho.
Somos uma porção de coisas ao mesmo tempo e quem escreve, também escreve a partir delas.
Toda escrita parte de algum lugar
Quando falamos em "lugar", não estamos falando apenas de geografia. Escrevemos a partir de um corpo, de uma época, de uma família, de uma geração, de uma língua, de um território, dos nossos afetos, medos, crenças, acessos, faltas e experiências.
E talvez seja justamente por isso que duas pessoas possam olhar para a mesma cena e escrever histórias completamente diferentes. Nossos olhos aprenderam a perceber coisas diferentes.
Durante o encontro, conversamos também sobre três perspectivas que vão nos acompanhar ao longo desse primeiro módulo:
Eu pessoa. Eu escritor ou escritora. Eu no mundo.
Não são três pessoas diferentes. São três maneiras de investigar quem está segurando a caneta (ou digitando no celular), porque também não vamos bancar os puristas por aqui: O "eu" também pode carregar muitos "nós"
Chegamos então à escrevivência, conceito desenvolvido por Conceição Evaristo. A conversa nos ajudou a perceber que uma experiência aparentemente individual pode carregar uma história muito maior.
Quando alguém escreve sobre sua mãe, uma rua, o trabalho, o próprio corpo, a infância ou uma casa onde viveu, pode estar (e provavelmente está) escrevendo também sobre território, geração, classe, gênero, raça, ancestralidade e relações sociais.
Às vezes, uma experiência pequena contém um mundo inteiro.
E isso nos levou ao principal exercício do encontro.
Primeiro, cada participante construiu um pequeno "mapa de quem eu sou", procurando lugares, pessoas, objetos, frases, marcas, desejos, contradições e ausências que poderiam servir como "portas" para uma história.
Depois veio o desafio:
Conte quem você é sem dizer quem você é.
Em mais um texto autobiográfico, a ideia era escrever por meio da técnica "revelação Indireta". Em vez de escrever "A minha mãe pipipi pópópó", a proposta era fazer o leitor descobrir que você escrevia sobre sua mãe por meio de uma cena, ou um objeto, um gesto, uma frase, lembrança, cheiro... mostrar antes de explicar. Confiar que o e a leitora são inteligentes o suficiente para entender do que, de quem, de onde você fala, sem ter que explicar ou anunciar de forma direta para ele isso.
Porque talvez um copo guardado no armário conte mais sobre uma família do que três parágrafos explicando aquela família.
Agora, uma pausa para falar dela, A biblioteca!
Tem uma personagem desse projeto que já apareceu no primeiro diário e provavelmente vai continuar aparecendo bastante por aqui: a própria Casa de Cultura do Butantã. Mais especificamente, sua biblioteca. Ou, pelo nome oficial, Ponto de Leitura Butantã.
O espaço funciona dentro da Casa de Cultura desde 2011 e possui um acervo variado de livros, jornais e revistas, além de desenvolver atividades ligadas à leitura.
E nós descobrimos mais uma coisa legal por lá: uma atenção especial aos gibis e histórias em quadrinhos. Tem HQ para procurar, descobrir, folhear e, quem sabe, usar como referência para alguma coisa que ainda vamos escrever por aqui.
Isso combina bastante com o que queremos construir. Porque o É Dia de Escrever não pretende formar uma comunidade apenas de pessoas que escrevem. Queremos formar uma comunidade de leitores e escritores.
Uma coisa alimentando a outra.
E ter uma biblioteca literalmente ao nosso redor durante os encontros ajuda bastante.
Bom... aí chegaram os saguis
E no meio de toda essa discussão sobre identidade, memória, território e observação...a natureza resolveu participar da aula.
Um. Dois. Três. Até contarmos seis bichinhos circulando pelas árvores próximas à biblioteca.
Saguis? Achamos que sim. Talvez outra espécie? Vai saber.
O importante é que eles apareceram e roubaram a minha atenção. O que, pensando bem, tem tudo a ver com a proposta dessas primeiras semanas. Estamos treinando olhar. Perceber aquilo que normalmente passaria despercebido. Guardar pequenas cenas.
Porque ninguém sabe qual delas vai acabar entrando em um texto daqui a três meses.
E fora que é mais uma prova de que a Casa de Cultura do Butantã é um lugar perfeito para se praticar a escrita e reflexão. Muuuuita área verde e agora tem até saguizinhos para participar.
Nada mal para uma quarta-feira de manhã.
Semana que vem tem mais. Até lá, continuamos com o nosso desafio: uma pequena anotação por dia.
Sem obrigação de escrever bonito.
Sem precisar transformar tudo em história.
É só prestar atenção.
Porque, no fim das contas, todo dia continua sendo É DIA DE ESCREVER!






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