• Priscila Brito

Autobiografia, por Priscila Brito

Sobre uma coisa tenho certeza na minha trajetória e é a de que os livros mudaram a minha vida. Mas para que você entenda como isso aconteceu é preciso voltar no tempo, mais especificamente ao ano do meu nascimento.


Nasci em 23 de setembro de 1988, na cidade de São Paulo, poucos dias antes da promulgação da Constituição do Brasil, um dos marcos mais significativos da história de um país que viveu anos sob o regime da ditadura militar. Foi também nesse que ano que se comemorou 100 anos da Lei Áurea, responsável por abolir a escravidão no Brasil.


Dito isso, saibam que sou a segunda filha do casal Francisco e Rosangela que se casaram em 1985 e que, um ano depois, iniciaram a sua linha de descendentes com o primogênito Carlos. Ao meu nascimento, seguiu-se a vinda de Rodrigo, em 1990, Tamires, em 1991, Daiana, em 1992, Kátia, em 1994, Cristiane, em 1995 e, por fim, a caçula Gislaine, em 1996. Ufa! Sim, meus pais tiveram 8 filhos juntos e sim, apenas para esclarecimento, eles tinham televisão em casa.


Meu pai é oriundo de uma pequena cidade ao sul de Minas Gerais, chamada Três Pontas, vizinha de Varginha (aquela mesma do ET famoso). Já a minha mãe é aqui de São Paulo. Nossa família é bastante misturada. Da parte da minha mãe tem brancos, indígenas e pretos, já na do meu pai tem uma predominância de pretos.


Citei a Lei Áurea do início do texto, porque embora 100 anos possa parecer bastante tempo, a gente sabe que a adaptação de uma sociedade demora muito mais. Por isso, embora eu não tivesse muita consciência do que era racismo quando era criança, sofria quando alguém fazia chacota do meu cabelo ou da minha cor e muitas vezes me peguei questionando porque eu não era igual a maioria dos meus amiguinhos da escola. Durante a infância não tínhamos o hábito de conversar sobre questões raciais ou de fortalecer as nossas raízes e isso me custou uma autoestima muito baixa na adolescência.


Mesmo que a minha família não fosse uma das mais afetuosas, desde cedo meu pai frisou que apenas seríamos alguém na vida se estudássemos e levei aquilo muito a sério, já que ele não era muito de conversar com a gente. Meu pai e minha mãe não terminaram o ensino básico e eu via no nosso dia a dia - de extrema dificuldade e privações - o quanto aquilo pesava sobre os ombros deles. Havia dias que a comida nos era escassa e durante muito tempo contamos com doações para nos vestir e calçar.


Quando aprendi a ler aos 7 anos, um mundo mágico se abriu para mim: o dos livros. Eu lia tudo que estava ao meu alcance e amava ir para a sala de leitura da escola. Ler era o meu refúgio. Era onde encontrava os meus melhores amigos. Para onde viajava nas férias.

Eu sei que isso pode soar meio solitário, mas não é. Foi através disso que aprendi a ouvir as pessoas, a observar as suas ações, a querer entender as suas batalhas diárias.


Aos 8 anos, arrisquei a escrever o meu primeiro livro que narrava uma história de uma estrelinha amarela que era diferente de todas as outras estrelas azuis no céu e ela sofria por sempre a excluírem, até que um dia ela encontrou uma estrelinha vermelha que era tão diferente quanto ela. Sempre que lembro dessa história me vem à cabeça o quanto os desenhos e o que as crianças escrevem são dotados de um significado muito mais profundo do que os adultos podem enxergar ao primeiro instante.


Assim, encontrei uma outra ferramenta poderosa para vencer a minha realidade difícil: a escrita. Sempre que possível colocava no papel meus sonhos, meus medos e inseguranças, minhas esperanças e, assim, encontrava o meu espaço no mundo. Todo mundo diz que eu tenho boa memória, mas a realidade é que tenho o hábito de escrever diários e revisitá-los sempre que posso. Dessa forma, consigo entender quem fui, quem sou e traçar planos de quem serei.


A escola havia se tornado o meu segundo lar. Tinha professores queridos que sempre me incentivaram e que desempenhavam um papel bem maior na vida de seus alunos do que eles possam imaginar. Lembro que uma vez na quarta série, durante uma feira do livro promovida pela escola, discretamente a professora Carlota me chamou e disse que eu poderia escolher o que eu quisesse e vocês não têm noção da felicidade que aquilo me proporcionou.


Escolhi um com os contos de Perrault. Tenho esse exemplar comigo até hoje, quase 22 anos depois. Na parte de trás da capa, escrito em letra cursiva, estão os seguintes dizeres: “Você Priscila é uma menina muito especial e que não esquecerei nunca. Muito capaz, com muito interesse e muita garra. Não deixe nada acabar com tudo isso. Você vencerá. Tenha certeza! Profa Carlota 05-10-99”. Ainda hoje, todas as vezes em que me sinto triste ou desanimada com alguma situação, essas palavras me dão fé e renovam as minhas esperanças.


Nessa mesma época me apaixonei pela apostila de uma escola particular que veio junto com uma grande caixa de gibis que um dos patrões do meu pai deu para nós. Havia um módulo sobre Astronomia que se tornou meu preferido e foi então que coloquei na minha cabeça que eu seria astrônoma quando crescesse (mas também seria cantora, atriz e escritora, claro).


Segui lendo livros e mais livros. Aos quatorze anos eu resolvi escrever o meu primeiro romance, uma história de ficção que até hoje foi lida apenas por uma das professoras de português e da professora da sala de leitura da escola que, de tanto me ver por lá, se tornou uma amiga querida.


Foi apenas no Ensino Médio que as minhas opções de carreira se definiram, mas eu ainda me dividia entre fazer Letras e Jornalismo (Astronomia havia ficado fora de cogitação, afinal como disse um certo professor uma vez, era quase impossível seguir a profissão aqui no Brasil).


Minha esperança, ao final do Ensino Médio, era a de conseguir entrar para o Ensino Superior através do Enem, uma vez que eu não tinha condições de bancar aquele gasto. Entretanto da primeira vez que fiz a prova, não obtive uma nota tão boa. No ano seguinte, após estudar por conta própria, sabia que aquela era a minha chance. O tema da redação daquele ano foi “O poder de transformação da leitura” e aquilo me soou como um sinal. A pontuação que obtive na redação e na prova objetiva me garantiu uma bolsa de 100% na universidade.


Cursei 4 anos de Jornalismo e ingressei no mercado formal como produtora de conteúdo digital. O mais engraçado é que isso foi me afastando cada vez mais do meu sonho de me tornar escritora. De alguma forma, eu me frustrara um pouco com a faculdade e em como não estava seguindo o que eu realmente queria fazer na minha vida. Ao longo de anos fui colecionando rascunhos e mais rascunhos de histórias que eu nunca terminava. Nunca parecia bom o suficiente, nunca parecia o momento certo para eu me dedicar a isso.


Fui engavetando um por um dos meus sonhos.

Em 2012, numa transição entre empregos, descobri que estava grávida. Foi uma daquelas sacudidas que a vida te dá, porque de repente me vi grávida e sem trabalho. Meu marido, Douglas, era militar e não ganhava bem, o que nos obrigou a morar temporariamente na casa da mãe dele.


Minha filha Isabel nasceu em março de 2013. Douglas e eu estávamos em um relacionamento há pouco mais de 4 anos e nos ver como pais naquele momento foi um grande desafio. Eu tinha 24 anos e ele 23. Juntos conseguimos evoluir muito como pessoas e aprendemos a ser os pais que a Isabel precisa e merece. Isabel já nasceu praticamente com um livro na mão e o nome dela, como não poderia deixar de ser, é em homenagem a uma personagem de um dos meus livros favoritos.


Quando minha filha completou um mês e dez dias fui chamada para uma entrevista em uma empresa que eu sempre desejei trabalhar. Três semanas se passaram até eles me contatarem com a resposta de que eu havia conseguido a vaga. Com o coração na mão tive que retornar ao mercado, pois sabia que a minha família precisava disso. Eu me tornara outra pessoa com a maternidade, havia ganhado um novo propósito na vida e sabia que no fundo eu poderia melhorar aspectos do meu próprio relacionamento com a minha mãe que sempre me incomodaram.


Contudo os dias, meses e anos foram passando e uma frustração imensa foi crescendo dentro de mim. Não tinha mais a mesma dedicação à leitura, muitas vezes os únicos livros que colocava nas mãos eram os que lia para a Isabel dormir.


Sequer escrevia qualquer coisa que eu gostava... parecia que a minha criatividade

havia sido roubada de mim. No meu peito morava um vazio imenso que eu não saberia descrever.


Então fui fazer terapia, meditação, até me dar conta do quão desconectada de mim mesma eu estava. Resgatei um dos rascunhos que havia começado a escrever há anos e durante alguns meses me sentei na frente do computador todos os dias. Era uma tarefa extenuante após uma jornada de 10 horas diárias de trabalho, mais 3 horas de transporte público, organizar as coisas da casa, brincar e dar atenção para a minha filha. Mas eu havia colocado na cabeça que precisa dar vida aos meus personagens. Tudo estava fluindo novamente e no começo de 2020 finalmente eu estava com um manuscrito que via potencial de publicação.


Me imaginei indo na Bienal daquele ano e atraindo os leitores um por um, no entanto as coisas não se desenrolaram como eu esperava. De maneira abrupta uma pandemia tomou conta do planeta fechando tudo. A cada vez que ligava o noticiário era uma notícia pior do que a outra. Lojas fecharam e todos os eventos presenciais foram cancelados.


Havia chegado à conclusão de que não era o momento de lançar o livro, porém me aventurei nas redes sociais para publicar meus textos, contar um pouco da minha história, das minhas leituras. Até que finalmente, no início de 2021 o meu livro ganhou vida com o título “Desconectada”. Engana-se quem acha que se trata de uma história de autoajuda, mas é uma história de amor adolescente, com algumas pitadas, sim, de reflexão. Afinal não seria meu, se não tivesse esse elemento tão importante.


Lancei o livro de maneira independente através da Amazon e desde então, fico muito feliz a cada leitor que me dá um feedback sobre a história, sobre os personagens que mais gostou. É incrível poder proporcionar um momento em que as pessoas possam rir e se emocionar, ainda mais nessa situação global de extrema dificuldade que vivemos. Se me perguntarem por qual motivo eu escrevo, essa é a resposta: os livros mudaram a minha vida e espero que o que eu escrevo possa tocar, de alguma forma que seja, a vida dos outros.


Esse é o legado que almejo deixar para a humanidade.


Priscila Brito é escritora e é uma das participantes do projeto É DIA DE ESCREVER.


Ela faz parte do Grupo de Negritudes e você pode conhecê-la e baixar o seu livro através do seu instagram @apriscilabrito.

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