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7 Dicas Para Escrever Uma crônica


Aconteceu uma coisa besta hoje? Maravilha. Pode ter uma crônica escondida aí.


Bora escrever?



Você acordou, tomou o seu café, aí saiu, alguém furou a fila do ônibus, ainda assim você conseguiu subir no ônibus, chegou atrasada no trabalho, aí seu chefe ficou pistola, na volta um cachorro passou carregando um chinelo, você foi fazer carinho nele e ele mijou em você e uma senhorinha viu tudo e começou a filmar e rir feito louca e você diz que "nada aconteceu hoje?



Manas, Manos e Monas... sempre acontece coisa pra dedéu no nosso dia! A gente é que acha que tudo é comum e ordinário.


A crônica tem essa maravilha: ela consegue pegar uma situação aparentemente comum e dizer:


— Pera lá. Tem alguma coisa interessante aqui.


E tem mesmo.


Então, antes de achar que você precisa viver um grande romance, sobreviver a uma guerra ou descobrir que seu pai era um espião internacional para ter assunto, vamos conversar sobre como escrever uma crônica.


Primeiro: que raios é uma crônica?

Crônica é um texto geralmente curto que nasce muito perto da vida cotidiana.


Uma conversa no elevador. Uma situação no trabalho. A vizinha. E por aí vai.


Sabe aquela criatura que escuta vídeo sem fone no transporte público? Então, este é um dos grandes temas da literatura contemporânea, na minha humilde opinião.


O cronista observa uma coisa comum e encontra nela algo além do acontecimento. Algo extraordinário.


Em uma crônica você pode encontrar humor, tristeza, absurdos, crítica, lirismo, saudade, ou simplesmente uma pergunta.


É como olhar para uma coisa que todo mundo viu e dizer: “Vocês repararam NISSO aqui?”


Aí mora o borogodó.


1. Vire um fofoqueiro profissional da vida

Calma.


Não estou mandando você ficar atrás da cortina anotando o horário que a vizinha chegou.


Embora...



Não. Foco, Milly.


Estou falando de observar.


Quem escreve crônica precisa prestar atenção nas pequenas coisas.


Experimente passar um dia procurando cenas. O casal discutindo baixinho no mercado. A criança negociando com a mãe. O homem correndo atrás do ônibus. Uma placa escrita errada. Uma conversa ouvida pela metade. O silêncio estranho de uma sala.


Anote.


Não precisa saber ainda o que vai fazer com aquilo.


Escritor também é colecionador de tranqueira. Só que a tranqueira é feita de acontecimentos.


2. Não conte apenas o que aconteceu

Aí está o pulo do gato. Se você escrever: "Fui à padaria. Pedi seis pães. O padeiro me entregou sete. Voltei para casa."

Parabéns.


Temos um boletim de ocorrência da panificadora.


Agora pense: por que aquela situação chamou sua atenção?


Talvez sua mãe sempre pedisse seis pães. Talvez você more sozinho agora e ainda compre a quantidade que sua família comprava quando você era criança. O sétimo pão pode ter feito você perceber isso.


Olha a danada da crônica aparecendo!


O acontecimento é a porta.


O que você percebe através dele é o texto.



3. Comece pequeno

Não inventa moda. Você não precisa começar escrevendo: “Desde os primórdios da humanidade, o pão acompanha o homem em sua inexorável caminhada...”


Pelamor.


Você foi comprar pão.


Comece daí.


“Pedi seis pães. O padeiro colocou sete no saco.”


Pronto.


Temos uma situação.


Depois você abre a janela para aquilo crescer.


Uma boa crônica frequentemente parte do particular para alguma coisa maior.


Você começa falando do pão e termina falando de família, política, futebol...do que quiser.


É foco, porrada e reflexão (não necessariamente nessa ordem).



4. Escolha quem está contando essa história

Você pode escrever como alguém que participou da cena: “Entrei no ônibus e lá estava ele...”


Ou como alguém que observou: “Toda manhã aquele homem ocupava o mesmo banco.”


Pode exagerar, brincar, fazer suspense. Pode conversar diretamente com o leitor.


A crônica permite uma proximidade deliciosa com quem está lendo. Use sua voz.


Não tente escrever como você imagina que um “escritor de verdade” escreveria. Porque aí aparece aquele texto engomadinho, usando palavras que você jamais usaria nem sob ameaça.


Se você diria: “O sujeito estava possesso.” Não precisa escrever: “O indivíduo encontrava-se profundamente consternado.”


Credo.


Crônica, é uma conversa sua com o leitor, sentados na calçada. Não é um gênero que precisa de um pedestal.



5. Encontre o seu olhar

Duas pessoas podem presenciar exatamente a mesma situação e escrever crônicas completamente diferentes. É justamente aí que mora a graça.


Imagine um homem correndo e perdendo o ônibus. Uma pessoa pode escrever uma crônica engraçada. Outra pode falar sobre pressa. Outra sobre transporte público e política. Outra lembra do pai, que vivia atrasado. Outra começa a pensar sobre todas as coisas que perdeu na vida porque chegou cinco minutos tarde.


O assunto não é apenas o que aconteceu. É o que aquilo provocou em você.


Amigues, se perguntem: Por que estou contando isso?


Se encontrarem uma resposta interessante, siga esse fio.



6. Não explique tudo, criatura!

Uma tentação comum de quem está começando é terminar o texto explicando o próprio texto.


A crônica fala sobre solidão durante três páginas e no final vem: “Portanto, podemos concluir que a solidão é um problema muito importante na sociedade.”


Não!

Volta aqui!

Apaga isso!


Confia no leitor.


Uma imagem, uma frase ou uma pequena mudança de perspectiva pode terminar sua crônica melhor que um parágrafo explicativo.


Às vezes o melhor final simplesmente deixa alguma coisa reverberando.


Pá!

Acabou!


E o leitor que lute um pouquinho também.



7. Seu cotidiano já tem assunto suficiente

Se você acha que sua vida é comum demais para escrever, tenho uma notícia:

a vida de quase todo mundo é.


E ainda bem.


Observe durante uma semana: trabalho, família, vizinhos, transporte, comida, redes sociais, pequenos medos, pequenas alegrias, absurdos cotidianos, conversas, notícias, amores, raivas.


Você não precisa procurar uma história.


Talvez precise apenas perceber a história que já passou na sua frente hoje.


Então toma um desafio da Milly.


Hoje, escolha uma situação absolutamente banal que aconteceu com você. Pode ser uma ida ao mercado. Uma mensagem recebida. Uma conversa. Enfim...


Escreva primeiro o que aconteceu.


Depois responda:


Por que eu me lembrei justamente disso?


Agora escreva novamente.


Só que desta vez deixe entrar sua opinião, seu humor, suas lembranças, sua raiva, sua estranheza ou qualquer coisa que aquela cena provocou.


Pronto.


Talvez você tenha começado uma crônica ou talvez tenha escrito uma bela porcaria.


E tá tudo certo, meu chapa.


Porque texto ruim tem uma vantagem gigantesca sobre texto perfeito: ele existe.


E texto que existe a gente melhora.


Agora larga essa autocensura, abre o bloco de notas e vai reparar na vida.


Ela está fazendo hora extra para te dar assunto.o





Beijocas literárias e cuidado: depois que você começa a escrever crônica, até a fila da lotérica vira pauta.

Milly Alves

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