• Marian Koshiba

Conto: Mais um dia na minha vida, por Marian Koshiba

- Grunnc... - meu estômago emite sinais claros de descontentamento. É tão cansativo sentir os mesmos sabores limitados e texturas monótonas quando se tem um paladar e um faro tão excepcionais quanto os meus. Pior ainda quando estou ciente de que há um sem-fim de possibilidades que me são negadas por mero egoísmo - egoísmo de quem não tem um décimo da sensibilidade olfativa que eu tenho, diga-se de passagem.


Resmungo aos meus colegas de casa, que seguem deitados. Além de extremamente

individualistas, são demasiado preguiçosos. Isso é porque ficam o resto do dia para lá e para cá, concentrados em mil tarefas inúteis, gastando energia por nada.

- Sabe, há essa hora o Alfredo e a Norah, nossos vizinhos, com certeza já estão mais do que alimentados. Já estão no segundo lanche pós-café da manhã, a 20 minutos do pré-almoço. Vejam, sou extremamente compreensiva por aguardar até agora. Mas tudo tem limites!


Nada. Um murmúrio de cá, outro de lá, uma virada 360 graus no eixo, igual eu faço, quando estou em uma das minhas sonecas restauradoras da vitalidade. Mas não vejo esboço sequer de que deixarão a vida boa e ouvirão os meus apelos. Elevo o tom do desespero:


- Ahhhhhhhhhhh! Meu estômago está doendo, sinto que serei levada desse mundo hoje, vou desmaiaaaar.....


Grunhidos. Mandaram mesmo eu parar de reclamar? Realmente, não há limites para o desrespeito alheio! Hora de apelar ao emocional:


- Na minha lápide há de constar: morreu por total abandono dos seus, por negligência vil que vitimou uma nobre alma por inanição!!! Ahhhhhhh!!! - grito, enquanto dou pinotes de corridas desesperadas pelo quarto, fazendo-me ouvir aos quatro ventos.


Finalmente, alguém toma vergonha na cara. Meio cambaleante, ela levanta - geralmente é ela, que é por quem eu tenho o maior respeito nesta casa, que me acode na maior parte das minhas súplicas. Acompanho-a, de perto, tão de perto, que ela quase tropeça em mim.


Observo os movimentos lentos do abrir do mágico caixote reluzente, a luz e o bafo ártico que escapa de dentro dele. Bem, isso já é um bom sinal. Tudo que há de bom vem daí, ou de pacotes que trazem lá de fora.


- É isso que temos pra hoje. Nem adianta me olhar com essa cara - ela diz.


Meu olfato me diz que é mais daquela geleca com grumos sabor qualquer-coisa-que-se-assemelhe-à-peixe. Não é dos piores, mas sem dúvida está longe do que eu considero uma refeição à altura da minha estirpe e paladar.


- Você bem sabe que carnes frescas de primeira, sem gordura e fibras, recém moídas, ou bacalhau dessalgado é o que meu corpo necessita para manter-se saudável, não sabe?


Ela finge não me ouvir.


Dou umas lambiscadas reticentes, mostrando meu desagrado. Olho para ela, como quem tem esperança de que alguma outra opção se apresente mais atrativa. Ela me encara, enquanto prepara seu próprio desjejum. Mostra o que tem nas mãos, mas não é nada que pareça muito melhor. Volto ao meu prato, mas deixo mais da metade do que me foi servido. É uma prova do meu desgosto, ao mesmo tempo que envio uma mensagem velada de intuitos educativos.


Sigo então para meu ritual de saúde; dirijo-me à minha fonte de água fresca, para um belo gole revigorante...


- Arghhhhh!!!!!!! Essa água definitivamente não é de hoje. Eu posso ver no reflexo as poeiras dançando na superfície, é tão evidente quanto as minhas orelhas grandes na minha cabeça!


Sento-me, de frente ao meu bebedouro, alternando meu encarar inconformado entre ele e minha interlocutora. “Não se faça de sonsa”, penso eu.


- Tá bem, Mynah, sua água está velha já? Eu coloquei ontem mesmo à noite! - apesar do retrucado, traz-me uma água cristalina, gelada e fresca, que sorvo com o prazer e a sede de uma andarilha no deserto.


Eis que um revolver de entranhas pulsa em minha barriga. Essa alimentação não é adequada ao meu sensível trato intestinal. Dirijo-me ao meu toalete, desesperadamente necessitada. Mas, ah, o horror!


- Toda vez esse disparate! Como fazer minhas necessidades em paz quando ainda posso sentir o odor de usos anteriores, com minhas patas correndo o risco de pisotear fluidos antigos? - equilibro-me, num verdadeiro malabarismo, fora do campo minado, posicionando todo meu peso em uma das quinas superiores do meu toalete.


Fico intrigada, toda vez, pela diferença de tratamento. Por que eles tem um toalete que nunca têm resíduos? Tudo está sempre automaticamente limpo!


Eles devem contratar um serviçal de toaletes que fica escondido e limpa tudo imediatamente, mas não o compartilham comigo.


Enquanto concentro minhas forças nesse ato tão primordial, sinto um estranho movimento abaixo de meus pés.


- Mas que rai....

Cataploft!


Meu toalete, como se revoltado com minhas críticas, entorna em minha direção seu conteúdo.


Rápida como sou, escapo sem um grão de areia - e dejetos - sobre mim. O barulho atrai meus companheiros.


- Mynah! O que você fez!?

- Eu fiz o que pude com o absurdo que vocês me fazem passar. Esse é o resultado, até o toalete está se rebelando! - digo, enquanto caminho para longe daquela cena deplorável, deixando a bagunça para sua responsável.


Sinto, então, um calafrio, vindo do vento frio que penetra pelas frestas da casa. Corro de volta ao meu leito privativo e circular, mas tão logo eu preparo para aninhar-me de volta ao conforto, um cheiro esquisito queima minhas narinas como lanças em chamas.


- Meu Deus, que criatura terá dormido no meu santuário sagrado e exclusivo de repouso, durante a minha ausência?


Func, func, func... Um ser deveras mal cheiroso, apesar de ser um cheiro um tanto familiar.


Não perco minhas energias, já exaustas, com um escrutínio da origem do fedor. Vejo, logo ao lado, uma mantinha fofa exalando limpeza. Dou 3 voltinhas, amasso um pouco para aumentar o conforto, finalmente me deito.


Mas mal inicio a fase do sono profundo e abro os olhos em susto:


- Mynah, nada de dormir aí. Você sabe que seu lugar é na sua cama!


Dirijo a ela meu melhor olhar de desprezo:


- Você já sentiu o cheiro daquele lençol? Francamente! Você deitaria nele? - finco as minhas unhas como quem não pretende se mover um milímetro.


- Você olha com essa cara como se nós tivéssemos deitado aí - o meu outro colega de casa, que acabou de levantar, fala com um tom de deboche.


Retorno minha cara mais azeda, deixando claro o quanto odeio ser motivo de riso.


- É bem possível que tenham sido vocês mesmo, porque eu jamais exalaria um odor pútrido como esse! Vocês já viram quantos banhos eu tomo por dia? Isso jamais poderia ter vindo de um ser tão asseado quanto eu! - defendi-me.


Ela, novamente, se resigna ao meu clamor. Sai de cena e volta, alguns minutos depois, com um lençol fresquinho, com cheiro de sol e sabão, como eu gosto.


- Não há nada nessa casa que eu consiga sem um escândalo! - termino de esbaforar enquanto faço meu ritual de giros e pisoteadas antes de deitar.


Me sinto exausta. Mal o dia ergueu sua luz e eu já tive de colocá-los inúmeras vezes em seu lugar. Essa casa não segue a ordem e a correção devidas sem a minha intervenção austera.


No entanto, a corrente de ar fria segue rodopiando, me atingindo de todas as direções. Tento mudar de posição, até escondo meu rosto entre meus braços e pernas para ver se bloqueio aquela gélida brisa de inverno, sem sucesso.

Será mesmo que somente eu percebo a insustentável missão de se dormir dignamente com um frio desses?


Abro, com muito esforço, meus olhos. Pisco algumas vezes e vejo que não há ninguém por perto.


Minha audição anda meio ruim, coisa da idade avançada, então não consigo saber se estou sozinha nessa casa. Chamo por alguém. Uma, duas, três vezes.


Nem mesmo as cortinas movimentam ao som do meu chamado. Tento ser mais estridente. Nada. Passam intermináveis minutos enquanto sigo, sem sucesso, no meu choro.


Começa então a subir na minha garganta um sentimento terrível: um gosto amargo, um desespero que cresce, sufocante, como uma bola de pelo. Eles me abandonaram? Aqueles insensíveis REALMENTE chegaram ao ápice da falta de consideração? Não me surpreende, de fato, diante de tantas mazelas a que me submetem todos os dias, mas mesmo assim, minha pura e ingênua alma não querem acreditar em tamanha

crueldade.


Levanto-me do meu conforto, ergo meu pescoço, analiso detidamente cada canto que minha vista consegue alcançar. Com nenhuma alma viva, começo uma gritaria desesperada, inconsolável:


- Oh Céus, Oh vida, como pode alguém ser desalmado a ponto de abandonar uma senhora idosa a um destino de solidão e descaso? Logo eu, que dediquei anos e anos a trazer a mais sublime alegria para essa casa, trouxe até alimento fresco, vivo, para contribuir com o sustento desse lar? É um disparate!!!


Socorro!!! Socorram essa pobre alma!!!


Sigo assim, por alguns bons minutos, entre resmungos e berros do fundo dos meus pulmões irados.


Fico cada vez mais preocupada em não estar sendo correspondida.


Quase rouca de tanto gritar, de repente eu vejo, de canto de olho, sombras se movimentando nas paredes ao lado. Meu coração quase pode ser ouvido, meu alívio misturado com alegria se expressam em sons guturais que emanam das minhas cordas vocais como cânticos gregorianos de gratidão - mas meu rosto mantém-se impassível na raiva, afinal, preciso provar meu ponto.


Ela então se senta ao meu lado, como quem olha um ser extraterrestre, com uma enorme interrogação estampada no rosto.


- Meu Deus, o que foi tudo isso? - ela pergunta.


Apenas viro o rosto. Depois de perder uma das minhas sete preciosas vidas jogando as tripas pra fora de tanto gritar, não me resta sequer o desdém ácido ou a crítica feroz para gastar com ela.


Meu outro colega chega, eles trocam algumas palavras e risadas, para as quais não tenho nem pique para prestar atenção. Percebo um movimento bem próximo a mim, um som de clique familiar. De repente, aquele congelante sopro cessa, enquanto uma corrente quente preenche o ar, fazendo cosquinhas no meu nariz gelado. Sinto o conforto dominando cada parte do meu ser, meus músculos tensos se acomodando. De repente, cada um dos desalmados se posiciona nos meus flancos esquerdo e direito, formando muros altos que amenizam a luz e qualquer resquício do rigor do inverno que ainda tentava se sobressair. Sinto, vindo de um deles, um ritmado cafuné, enquanto o outro alisa minhas costas com suas mãos quentes. O conforto que então dominava minha pele chega até o fundo dos meus ossos e da minha alma. Começo a adormecer e não consigo mais sustentar minha expressão de ressentimento.


No final das contas, durmo o sono dos justos: apesar de tão sofrida, sei que vou ao paraíso dos gatos por toda a compreensão e benevolência com que tratei os demais.



Marian Koshiba é cantora, escritora e compositora.



Faz parte do grupo de mulheres do projeto É DIA DE ESCREVER.


Se eu fosse você iria la no @marian.koshiba, dava uma olhada nos trabalhos dela e depois passaria a seguí-la.

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