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A Bandeira Atrás do Balcão

Atualizado: 5 de ago.


Caros e caras Amigos e Amigas.


Domingo passado, após cumprir meu papel de cidadão trabalhador e ficar por mais de 10 horas em pé, me dei o direito de ir a um bar (direito que, julguem ou não, me dou sempre), com um parceiro de trabalho (Quixote, artista def brabão) e minha irmã mais nova.


Queríamos apenas um bom banco para sentar com uma mesa para que nossos cotovelos pudessem se apoiar e segurar nossas cabeças, beber e tirar do corpo aquele peso de um dia de trabalho que herdeiros e herdeiras nunca vão ter o desprazer de sentir. Não esperava nada mais daquele domingo de sol que adormecia em uma noite fria como o litrão de Original que cristalizava ao ar livre.


As opções eram poucas. Após uma arrastada caminhada de 10 minutos sentido contrário a estação de trem de Santo Amaro, discutindo sinais de LIBRAS para gírias de fumantes da “Canalha Satva”, encontramos 2 possíveis portos para ancorar nossos sentimentos de dever cumprido e frustrações sobre nosso país.


Um dos cais era um bar classe média gourmetizado. Ainda era um boteco, mas não tinha cadeiras e mesas de plástico e os garçons estavam uniformizados. Som ambiente, limpo, um bom cardápio de alimentos e bebidas, silencioso, preços justos. Um boteco que apesar de boteco, sentaria com meus pais por lá.


O outro, tocava um Tecnobrega e era o extremo oposto do outro. Escolhemos este, mesmo com o preço do litrão R$2 a mais. 


Nem preciso confessar que Tecnobrega não é o que toca no meu dial do dia a dia. Mas já sentados no bar e com a cabeça já ativa para além desta dimensão, começamos a refletir sobre a árvore genealógica do Brega até chegar no Tecnobrega.


Chegamos em uma linha do tempo mais ou menos assim:




É um estilo nosso, brasileiro, que mistura o norte do país com o mundo trazendo influencias do brega paraense, dance music, eurodance, house, trance e com uma aparelhagem muito própria. Piano ruim e voz. Aqueles efeitinhos de bateria eletrônica, o tecladinho magrelo e o que mais gosto são as vinhetas "Forró -inclua aqui o nome do cantor", sempre rasgando o tecido sonoro no meio das canções, surge ela do nada com o seu reverb característico e a voz de locutor. 


Enfim, quando estralou um morango do nordeste nos falantes (muito maior do que o necessário para o tamanho do ambiente), foi difícil se segurar na cadeira. Dançamos como quem não sofria de fascite plantar e joelhos soltos.


Tudo ia bem. Cerveja, música, povo alegre reunido mas... algo chamou minha atenção e imediatamente mudou a temperatura do meu corpo e a minha interação com o ambiente. Imediatamente parei de dançar, conferi com mais atenção as pessoas, passei a tentar acompanhar algumas conversas fazendo leitura labial das pessoas nas mesas, comecei a reparar a relação dos homens com as mulheres que se esfregavam na pista, assim como reparei que o bar era dividido mais ou menos assim: 


  • 50% Homens

  • 35% Gays, Mulheres trans e comunidade LGBTQIAPN+

  • 15% de mulheres


O bar, as falas e a maioria das letras passaram a me soar muito estranho. Até o garçom chamando minha irmã de “princesinha”, passou de um gesto gentil para algo suspeito. O que me fez a mudar todo o clima e interação com o lugar foi isso:





(e aqui começa o X da questão deste texto de hoje)


Imediatamente após visualizar a bandeira exposta e presa no fundo do balcão do bar, meus olhos e todos os meus sentidos varreram o local para tentar estabelecer que tipo de ambiente e pessoas eu estava ali convivendo. Procurei padrões que me confirmassem o viés de que, sim, estou num antro de falsos moralistas, conservadores e malucos extremistas.


Infelizmente, nos dias de hoje, quem não se pega pensando “que tipo de pessoas moram nessa casa?” quando vê a amarelinha pendurada na janela. 

Com a copa, confesso que eu era essa pessoa: Coloquei nossa flâmula do Brasil na janela, pintei o quintal com as cores do país, vesti a amarelinha e até torci para o Neymar (que estranho escrever isso).


Gosto de pensar que algumas pessoas só esqueceram de tirar a bandeira da janela pós copa. Mas, ainda assim, costumo ter cuidado com esses "patriotas".


As conversas no bar, o modo que os garçons atendiam, tudo me dava dicas de que sim, apesar da música ser do povo, o bar e seus frequentadores eram "patriotas" demais para mim.


Cada vez mais começo a notar como os homens do local eram todos muito machões, alfas, tiozões do churrasco. Comecei a pensar se ali não tinha alguém armado.


Achei muito curioso o fato do bar ter uma boa porcentagem de gays e trans no local. Entravam sozinhos e sozinhas, e saiam sempre com alguém. Lá dentro, olhares e sorrisos de longe. Sem beijos, sem abraços, mas, quando me distraia, um machão que chegou sozinho, sempre saia com alguém daqueles três perfis apresentados acima.


Pensava comigo que os novos "Patriotas", cheios de hipocrisia, contrários ao pensamento crítico, incapazes de se reverem como homens, suas ideologias e preconceitos, fazem nas escuras em becos e carros o que não querem assumir na pista do Tecnobrega.


Entre uma conversa e outra com meu parceiro e minha irmã, minha cabeça fervia pensando que infelizmente, nosso maior símbolo nacional virou escudo de fascista. Basta se enrolar nela que você está protegido.


Naquele momento, meu ódio fervia e só aumentava pelos “Patriotas”. Ficava pensando, como podem na Internet, ruas e bares cagarem preconceitos e barbaridade pela boca, mas aqui, por debaixo do nosso pano nacional, ficarem mamando ou sendo mamados por aqueles que eles julgam inferiores. Ali, ninguém reclamava de dividir o banheiro unissex. Os “Patriotas” que tem a coragem para invadir Brasília e gritar "Intervenção Militar", são os mesmos covardes que não assumem seus romances.


Aqui vai a principal reflexão do Tio Bob Wilson: Eu não me sinto representado e confortável frente a Bandeira do Brasil. Você se sente? 

Lá pelo terceiro litrão, me lembrei de Benedict Anderson que defendia que as nações são comunidades imaginadas: pessoas que nunca vamos ver mais gordas na nossa frente, mas que nos faz sentir irmãos e parte de um mesmo grupo. Comentei isso na mesa, mas eles estavam mais interessados em falar mal das pessoas que jogam Beach tênis.


Então, quando falo que ela não me representa e que não fico confortável frente a ela é porque sei dos recortes de surgimento dela, das histórias e o que ela significa para alguns.



O velho, Bob Wilson, informa aos desinformados que existe uma história popular que nos conta que as cores da bandeira teriam originalmente representado importantes famílias da monarquia, como a Casa de Bragança e a Casa de Habsburgo, associadas ao período imperial (embora essa interpretação não seja considerada oficial por muitos historiadores). Mas, euzinho, acho muito tosco pensar que alguém em 1889 pensou nessas cores para simbolizar o céu azul estrelado, os campos e essas coisas simplistas.


O desconforto frente a ela é por ter passado a enxergar esta bandeira como um guarda-chuva que protegeu e protege até hoje famílias tradicionais deste país. Agora, essas famílias abriram um espacinho debaixo deste manto para colocar também fascistas e acéfalos que defendem com unhas e dentes os interesses dos poderosos.


Só pensava comigo na mesa do bar “o que tem de rato que defende ratoeiras aqui dançando…”



A nossa sociedade e o mundo estão tomados por um sentimento nacionalista e liberal que cooptam bandeiras, cores e símbolos para justificar ações extremas e defender a burguesia.



Por isso, para mim, nossa bandeira JÁ DEU O QUE TINHA QUE DAR.



Nosso hino, é bem diferente. A letra atual, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada, lá em mil novecentos e bolinhas, pertence ao período republicano e adota uma linguagem fortemente influenciada pelo romantismo e pelo nacionalismo cívico da época. Durante a copa, quem não se emocionou todas as vezes que esse hino tocou, tá morto por dentro. O hino era o nosso maior momento nos jogos. Já o time, nosso pior terror.




Nosso hino, ao contrário da bandeira, em vez de homenagear a monarquia ou as elites, exalta a pátria, a natureza, a liberdade e a soberania nacional, refletindo o projeto de construção de uma identidade brasileira comum. Olha que belo. Não baba e afaga elites, famílias e poderosos.



Por isso, para mim e sei que para muitos, enquanto a bandeira frequentemente desperta debates sobre ela, o hino representa um ideal republicano de unidade nacional.


Enquanto pagava a conta para ir embora, pois para mim, a noite tinha acabado, algo estranho aconteceu.


Entra no bar um sujeito com a camisa da Argentina acompanhado de 1 amigo e uma amiga. Assim que ele entra, o cantor já manda lá do palco um “Xiiii…chegou o argentino”. O cidadão de lá da porta retribui com um “Vai Argentina! Vai Millei! Vamos Flávio!”.


Nesse momento, o músico para a música e ao mesmo tempo o caixa lá do balcão (que não contava com o som parando) grita “AQUI NÃO SATANÁS!”.




Enquanto passo cartão e tomado por um choque de realidade que contrapunha todos os vieses de confirmação que tracei ao longo da noite, o cantor começa a próxima canção:





Quem responde o que é a vida?

Passei quase duas horas em um bar que, num primeiro momento, amei. Bastou lamber a bandeira do Brasil com meus olhos, que passei a odiar tudo ali e entrei num ciclo de paranóias e pensamentos que não me permitiram estar e aproveitar aquele momento ao lado do meu parceiro e minha irmã. Decido ir embora com o domingo dado por encerrado. Assim que escuto o barulho da maquininha confirmando o pagamento, a vida trata de me pedir “CALMA”.


Enquanto caminhava sentido estação de trem da Santo Amaro, ia vendo nos becos e carros todos os clientes do bar que saíram acompanhados de lá com alguém. Era amor, paixão, línguas, suor, dedos, amassos. Libertinagem pura em plena as ruas que cruzam o terminal Santo Amaro.


Naquele momento fiquei pensando muito mais em mim do que nestas pessoas e no bar. Bastou um pedaço de pano preso atrás de um balcão para eu transformar garçons em extremistas, clientes em hipócritas, homens em machões armados e um boteco em quartel-general do fascismo.


Neste clima confuso, sem entender se estava bravo, feliz, contrariado ou aliviado, descobri que eu também tinha vestido uma farda. Não a verde e amarela, mas sim a do meu próprio viés.


Foi neste momento que tive a ideia para promover o maior concurso que este país já viveu nos últimos anos (será que posso ser preso por isso?).


Ainda acho que nossa bandeira foi sequestrada. Talvez até sem volta, amizades. Mas naquela noite aprendi outra coisa. Símbolos não sequestram ninguém sozinhos. Nós também chegamos armados de símbolos.


Por isso, e se nos provocarmos a pensar em uma NOVA BANDEIRA DO BRASIL?


Porque confesso que não sei se estamos retomando aos poucos as cores e símbolos nacionais, como dizem por aí. E mesmo que sim, isso ainda não resolve o problema que esse símbolo representa burgueses e ratos.


Precisamos de um emblema que reforce nossos valores de soberania nacional, diversidade, liberdade, meio ambiente, nossas riquezas. Que mostre ao povo que esse país é deles.


Caminhando de olhos fechados pela rua, sentindo aquele cheiro que só monumentos e becos de SP têm, entre um tropeço e outro, cheguei a imaginar possíveis bandeiras.


Tenta você também. Fecha os olhos, use a imaginação e tente visualizar como seria a sua bandeira do Brasil? Você consegue pensar em uma?

O que este último domingo me ensinou e trago para vocês foi que a bandeira do Brasil não é a única coisa carregada de significados.


Todos nós também somos.


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